Por Bruno Volpato
Sei tudo o que pensam meus amigos. Sei o que andam fazendo, como vão seus empregos e seus relacionamentos. Sei que filmes viram recentemente e a que shows irão nos próximos meses. Sei tudo isso, mas não me sento a uma mesa com quase nenhum deles para almoçar ou tomar uma cerveja há muito tempo, nem mesmo com aqueles que considero mais próximos. Devo agradecer ao Facebook por me manter informado sobre meus grandes amigos, já que não tenho tido tempo para encontrá-los? Provavelmente, mas não consigo curtir isso.
O botãozinho de “curtir” virou o último recurso – e talvez o mais pobre – da manutenção de relacionamentos. Descobrimos que um amigo está namorando ou que fez uma viagem para um lugar incrível e, ao curtirmos a foto ou vídeo postado sobre o fato, damos um sinal de que estamos cientes e felizes pela novidade. Fica por isso, no máximo repercutimos meses mais tarde, em um encontro fortuito, na linha do “e aquela sua foto lá em Paris, hein, que lugar”. E às vezes o amigo nem se lembra da foto, claro, um mero detalhe de um passeio inesquecível.
Nos tempos da falta de tempo, talvez devêssemos mesmo louvar o Facebook por ajudar-nos a compartilhar alegrias, conquistas e boas ideias. Mas e quando se trata da tristeza? Nas horas em que as pessoas sentem a necessidade de buscar apoio no silêncio das redes sociais, vemos a falta que o contato humano nos faz. É cada vez mais comum testemunharmos o luto de pessoas queridas, que muitas vezes nos comovem com frases e fotos lindas daqueles que as deixaram. O que fazemos? Curtimos, como se disséssemos “estou aqui, amigo”, quando na verdade não estamos.
A tragédia de Santa Maria, que levou embora 235 jovens, teve um caso emblemático, extremo. Uma jovem postou em seu perfil quatro palavras, que acabariam sendo seu epitáfio: “incêndio na KISS. Socorro.” Amigos pediram mais notícias e novas postagens, que nunca vieram. Uma versão virtual de parentes e amigos cercando uma pessoa doente em uma cama, esperando um suspiro, um gemido, uma palavra, enfim, um sinal de vida. Graças ao Facebook, milhões puderam estar em volta daquela cama esperando que Michele abrisse os olhos e dissesse, num linguajar eletrônico, mais quatro palavras: “eu tô BEM. Escapei”.
Talvez tenhamos que recomeçar aos poucos. Um telefonema para um grande amigo, um velho romance ou alguém que nos ama muito, mas a quem não damos muita atenção. Quem sabe levar menos trabalho para casa, parar de jantar com o smartphone na mão ou guardarmos nossos sentimentos para serem divididos em um almoço ou uma mesa de bar. Na tristeza, procurar um ombro de verdade para recostar a cabeça e olhos também reais que chorem junto conosco ao vermos fotos de papel. No fim, podemos, quem sabe, resgatar a conversa, a expressão de sentimentos, a troca e as risadas em conjunto. Nada de “kkkkk” ou “rsrsrs”.
Se os 235 de Santa Maria têm algo a nos ensinar é que, ao contrário deles, não seremos jovens para sempre. Temos o dever para com eles de vivermos cada segundo de verdade, no mundo real, com todos aqueles que amamos. Não é difícil: basta desligar este computador à sua frente e começar.

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