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Existe vida inteligente na sua TV

Por Antonio Bavaresco Que me perdoem aqueles que consideram televisão um divertimento menor. Ou os que sequer imaginam que possa minimamente contribuir para a …

Por Antonio Bavaresco

Que me perdoem aqueles que consideram televisão um divertimento menor. Ou os que sequer imaginam que possa minimamente contribuir para a cultura de quem quer que seja. Mas há vida inteligente entre os pixels de sua telinha. Principalmente se você tem condições de sustentar os custos de uma TV a cabo. A par de todos os seriados policiais que literalmente tomaram de assalto as ruas e os televisores dos quatro cantos do mundo (além dos americanos, pode-se encontrar bons seriados franceses, ingleses, alemães e até brasileiros, feitos com qualidade de cinema em alta definição), é possível se encontrar algumas raridades dignas de registro.

O canal Philos, da Globosat, estreou recentemente o documentário “Jimmy Carter, Man from Plains”, um trocadilho com o nome da cidade localizada na Georgia, terra natal do 39º presidente norte-americano – e que ainda hoje tem menos de mil habitantes. Produzido e dirigido, em 2007, pelo cineasta Jonathan Demme, o premiado realizador de Philadelfia e Silêncio dos Inocentes, o filme retrata os dias que sucederam ao lançamento do polêmico livro de Carter “Palestina: Paz não apartheid”, de 2006, que dividiu opiniões em todo o mundo. Além de acompanhar Carter em um roteiro que passou pelo Oriente Médio e atravessou os Estados Unidos, com entrevistas que foram de Joe Lenno à Al Jazeera, o filme visita alguns dos acontecimentos mais marcantes dos anos 70, auge da “Guerra Fria”, como o resgate dos reféns americanos no Irã e a negociação que culminou com o Tratado de Camp David, selando a paz entre egípcios e israelenses.

Uma das pérolas do documentário é o depoimento de Rosalyn, mulher de Carter, sobre o tenso período que marcou as negociações de paz envolvendo os chefes de estado do Egito, Annuar Saddat (assassinado alguns anos depois por grupos radicais árabes) e Menahem Begin, em busca de um acordo para a região. A ex-primeira-dama norte-americana relata uma história de bastidores que por si só já valeria um filme. Segundo ela, as primeiras reuniões envolveram os três na mesma sala, mas as discussões tornaram-se tão acaloradas que Carter resolveu negociar separadamente com cada um. Ainda assim e apesar de dias e noites em claro, as conversas fracassaram. Carter, mesmo assim, fez questão de uma foto entre Begin e Saddat. Providenciou cópias para ambos, com um detalhe que fez toda a diferença: separou uma para cada filho de Begin. Segundo Rosalyn, ao ler as dedicatórias com os nomes de seus filhos nas fotografias, Begin voltou atrás e mandou dizer que aceitava o acordo.

Há outras passagens antológicas, que revelam um homem incansável, do alto de seus 80 anos, e expõem uma figura pública digna do Nobel que recebeu em 1983 por sua contribuição para a paz. Com um estilo direto, que por vezes lembra um daqueles documentários estudantis, em que a câmera parece estar colocada no joelho de Carter, “Man from Plains” vale os 90 minutos, como um jogo do Barcelona. Para nós brasileiros, chega a dar uma pontinha de inveja perceber que, ao contrário dos norte-americanos, talvez não tenhamos tido um líder da estatura de Jimmy Carter em nossa república. E, o que é pior, o mais próximo de um documentário como esse tenha sido “O Filho do Brasil”. Spare-me, please!!!

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