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Falem mais que tá dando certo pra Kombi

Por Letícia Baptista de Castro, para Coletiva.net

Um texto raso para um desabafo profundo. 

Tudo gera debate. Não sei dizer se isso é bom ou ruim, mas tem sido bem cansativo. Nos últimos dias, tenho visto e lido muitas críticas sobre um comercial que usou parte daquilo que nos faz humanidade: emoção, história, pretexto e inteligência. A emoção de reunir mãe e filha em uma canção que insiste nos mesmos “erros” de geração em geração. A história de um ícone que carrega mais do que carga, gente ou oferta de emprego aos operários que o fabricam. Um pretexto pra lá de caprichado para criar um fato novo no lançamento de um produto repaginado. Por fim, a inteligência, que vou deixar pra vocês interpretarem, pois também conto que a tenham e que merece mais um parágrafo. Com esses elementos combinados, o resultado da mistura que um briefing do cliente nem sempre consegue traduzir, é que a nova Kombi chegou dando o que falar. Primeiro objetivo de qualquer mesa de planejamento de campanha publicitária cumprido com sobra.

Mas sobre o filme, não tem como falar que Elis Regina morreu porque se trata de uma entidade, porém a certidão de óbito data de 19 de janeiro de 1982. Já Maria Rita, sua filha, está vivíssima e realizando um sonho: cantar com a mãe. Aqui já terminaria o texto, um sonho de uma filha realizado. Lindo, emocionante e cheio de história. Questões que poderiam surgir da campanha: a nova Kombi é elétrica? Faz barulho? Pega fogo? Nada disso é relevante porque estamos buscando muitos motivos para questionar a produção publicitária do produto (e que fique claro, adoro um debate, mas tenho escolhido melhor as minhas batalhas e acho que essa é uma delas). Pois bem, aqui estou de peito aberto defendendo o filme, a ideia e os profissionais por trás da obra.

Primeiro, porque usaram inteligência artificial para reproduzir a imagem de uma pessoa que já não está fisicamente aqui para gerar carinho. Achei incrível dar um uso “humano” para isso, mas não vejo a mesma interpretação no perfil de alguns que não veem problema em testar sua versão “bonita” na mesma tecnologia. “Ah, mas não morri”. Se preferiu procurar no Google a relação da Volks com a ditadura antes de enozar a garganta ou não chorou, tenho dúvidas e talvez tu já esteja mais artificial do que imagina.

Neste conteúdo, a AI foi usada para criar beleza, realizar um sonho, criar uma memória. Uma experiência que a realidade física não permite, mas a virtual faz “com a mão nas costas”. Nem tudo é ruim, feio e mal intencionado. Nem na publicidade. Acreditem, temos coração, família e também cantamos “como nossos pais”.

A música. Sim, a letra é uma crítica, uma forma que nosso Belchior, outra entidade, nos traduziu os ciclos da juventude e fase adulta em um contexto de repressão. Mas gosto de saber que ele contava com a vida que sua obra ganhava a cada nova geração que a acessa e, mais do que isso, dá novas interpretações de acordo com a entonação dada pelo artista que a honra. Elis honrou essa música quando a cantou, assim como honrou seus fãs defendendo a greve dos operários da Volks. Ninguém vai apagar essa grandeza porque tudo isso é história, inclusive referendada pela polêmica que se levanta. Mas tudo isso, também, pode nos unir num ponto em comum: Elis vive e não tem nenhuma inteligência que supere a do amor. Viva Elis, Maria Rita e quem usou a inteligência amorosa junto com a artificial.

P.S.: não fiz minha versão na AI porque já me sinto como a nova Kombi – jovem e bonita depois dos 40 🙂 

 

Letícia Baptista de Castro é gerente de Negócios na Tornak Holding.

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