Artigos

Falta Imprensa na democracia brasileira

Por P. C. de Lester Vou repetir: falta imprensa na democracia brasileira. Está aí o mensalão que não me deixa mentir. Como é que …

Por P. C. de Lester

Vou repetir: falta imprensa na democracia brasileira. Está aí o mensalão que não me deixa mentir. Como é que circulava toda aquela grana e isso não chegava aos meios de comunicação?

Aliás, chegou, ao Jornal do Brasil. Mas o que é o Jornal do Brasil hoje? Um jornal desossado. Deu a manchete, ninguém acreditou, nem ele mesmo bancou, acabou se retratando.

Uma democracia que precisa de um Roberto Jefferson para saber de um esquema tão escrachado como o mensalão pode dizer que tem imprensa? Ou o mensalão é uma invenção de Jefferson que a imprensa, por desinformada, está bancando? 

Em qualquer hipótese, revela-se uma incapacidade da mídia convencional em lidar com o que acontece – fora dos gabinetes, além das declarações e das fitas de origem suspeita.

Por falar em cuecas…

Wanderley Soares lembrou um episódio envolvendo cuecas, antes do golpe militar de 1964. Resumo: o caso explodiu com uma denúncia do deputado Antônio Visintainer, do PTB de Jango e Brizola.

Visintainer declarou no plenário da Assembléia que o chefe da Polícia Civil, Armando Prates Dias, recebeu-o no gabinete em “trajes menores” como ficou registrado nos anais, já que a palavra cueca foi considera inadequada.

Foi um grande bate boca, mas afinal não deu em nada. Ou melhor, deu no golpe.

Prates Dias foi o homem que assumiu o poder naqueles dias em que o Rio Grande do Sul ficou sem governo – o governador Ildo Meneghetti saíra as pressas para Passo Fundo. Ele impediu que Brizola chegasse ao Palácio Piratini.

Conheci-o no fim da vida. Era um homem amargurado, que tinha um volume de Guerra e Paz embaixo do travesseiro e uma caneca com cachaça ao pé da cama.

* * *

Não acredito na teoria conspiratória. Mas é como dizem na fronteira: se não hay carne e hay pastel de carne, algo hay. Essa dos dólares nas cuecas parece coisa de armação, assim como esse telefonema das auditoras do INSS. Sabe aquela luz perfeita, aquela produção?

Não há um grupo maligno jogando como num xadrez. Há uma conjugação de circunstâncias, erros e exageros, que são aproveitadas por estrategistas, que não controlam os fatos, mas têm agilidade e meios para tirar proveito deles.

A única defesa eficaz contra isso seria uma imprensa muito independente e atenta. Não é o que temos. O princípio da imprensa liberal “informar o que acontece” ainda é algo utópico no Brasil.

A única saída para esta crise estrutural da imprensa brasileira é o leitor. O modelo de jornal ou veículo de comunicação que vive do anunciante está em xeque. Chegou ao ápice. Não tem mais o que entregar ao mercado. O leitor perdeu a confiança nesse sistema. Mas é viável viver do leitor? Eis a questão. 

Talvez nenhuma crise seja tão perigosa para a democracia brasileira quanto a da imprensa. Enfeixada em poucas mãos, a mídia se afasta do país real. Só reconhece a realidade quando é atropelada por ela.

Papel passado

“A imprensa foi um catalisador do golpe de 31 de março de 1964. Algumas publicações tinham conhecimento da conspiração e outras contribuíam voluntariamente ou não para a rejeição pública de Goulart.” (Anne Marie Smith, PhD em Ciência Política, em  Um acordo forçado. O consentimento da imprensa à Censura no Brasil, Ed. FGV,  P.29.) 

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.