Por Sérgio Capparelli Dois logos, dois pontos de vista. Um, na horizontal, de livros na prateleira e o chamamento internacional. Outro, na vertical, com o inconfundível estilingue. O primeiro chama para a feira do livro. O segundo para o seu boicote. Claro, os dois logos estão desproporcionais. O do boicote foi reduzido, por questões de espaço, mas não no site da Redazione Operaia, com a notícia da ocupação da sede da Fundação que organiza a feira. Já o logo Fiera Internazionale del Libro, de Turim, é desse tamanho mesmo e pode ser verificado aqui.
O anúncio da feira e o chamamento ao seu boicote parecem não combinar. Pelo termo livro, carregado semanticamente de algo que aproxima e do qual não se distancia, e pelo termo boicote, que propõe um distanciamento. E também porque, normalmente, o livro provoca um duplo movimento. Ou o leitor vai buscá-lo nas livrarias ou na internet, ou o livro procura o leitor nas feiras de livro.
Não é, porém, o que está acontecendo em Turim, com a programação da Feira Internacional do Livro de 8 a 12 de maio. Isso porque a Fundação, que organiza a feira, escolheu Israel como o país homenageado. Ao fazer a escolha, porém, descobriu que estava agitando uma colméia de abelhas e de sentimentos.
Escritores, estudantes, intelectuais e movimentos populares de Turim e de outros lugares da Itália insurgiram-se contra essa homenagem. Para essas pessoas, Israel não merece a honraria, pois faz uma limpeza étnica na Palestina.
Por medida de segurança, a polícia acaba de proibir toda e qualquer manifestação durante a abertura da feira, prevista para o próximo dia 8 de maio. Em outras palavras, não poderá acontecer nem a manifestação de protesto programada pelos movimentos sociais, nem uma reunião do grupo romano “Encontro em Jerusalém”, com bandeiras israelenses.
Os movimentos de protesto acentuaram-se nos últimos dias, como o do conhecido professor Gianni Vattimo, que falou ontem na Universidade de Bolonha: “Falamos sempre menos da política de Israel. Parece que hoje não se pode chamar de fascista um judeu“. Já Chiara Saraceno, socióloga da Universidade de Turim, acha que todo mundo tem o direito de agitar a bandeira que deseja, mas, neste caso, aconselha que seus amigos judeus deixem as bandeiras em casa. Ela disse ao Corriere della Sera: “Eu penso como o escritor Abrahan Yehoshua: Israel tem o direito de existir, mas não como existe agora. Se as bandeiras ao vento em 8 de maio significam “estamos com Israel aconteça o que acontecer“, melhor deixá-las em casa“.
Há quem não goste dessa proibição e dessa controvérsia. Ugo Volli, professor de Semiótica da Universidade de Turim, diz que é um fato muito grave proibir bandeiras de Israel e que ele irá a uma aula de Gianni Vattimo sobre “Israel e Limpeza Étnica” com uma bandeira de Israel e a estrela de Davi no peito: “As autoridades erraram ao proibir bandeiras de Israel”.
O delegado de polícia Stefano Berrettoni, no entanto, parece irredutível, conforme entrevista aos jornalistas: “Exclusivamente por razões de segurança, estão proibidas manifestações fora do perímetro da Feira do Livro. Quanto ao que acontece dentro da Feira, não é de minha competência e ficarei atento, para tomar as medidas cabíveis“.

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