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Fermino e os Ventos Roucos

Por J. A. Moraes de Oliveira Desde quando criança, Fermino das Dores não conseguia dormir em noites de ventania. Foi em uma noite ventosa …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Desde quando criança, Fermino das Dores não conseguia dormir em noites de ventania. Foi em uma noite ventosa que sua avó caiu de cama pela primeira e única vez na vida. As risadas das crianças se calaram e os crescidos andavam na ponta dos pés. De uma hora para outra, a casa grande parecia sem vida. Até mesmo a luz dos lampiões a querosene fraquejava, projetando longas sombras nas paredes.

Em seus quartos, as pessoas permaneciam insones, ouvindo a tosse seca da avó, abafada pelo grande lenço de seda azul. Na madrugada alta, a velha senhora finalmente adormecia e o vento se aquietava. Era hora de levantar sem fazer ruido, deixando as crianças com seus sonhos felizes.

Nos galpões, os peões vigiavam a noite até a luz do sol acender as frestas nas paredes. Se reuniam quietamente ao redor do fogo e pouco depois saiam a trote para os campos brancos de geada.

***

Em uma certa madrugada, Fermino das Dores acordou ensimesmado. Só não sabia bem porque. Saiu para o terreiro, caminhando campo adentro. O vento sul soprava forte – um aviso que o inverno estava chegando. Ele não costumava alimentar espantos, mas com o pampeiro roncando nas frestas do telhado, era difícil esquecer antigos invernos.

Conduziu o tordilho a passo até o alto do barranco, de onde ele costumava admirar o mar de coxilhas sem fim. O vento havia cessado e uma breve brisa soprou sobre seus medos e tristezas. Sem sentir, Fermino estava de volta no tempo – um menino assustado que gostava de ficar olhando, sem ver, os campos povoados de ausências.

Agora, o menino estava sozinho, desertado pelos amigos mortos ou distantes. Naquele mesmo lugar, tantos tempos atrás, ele via carretas carregadas de gente e tralhas, saindo pela porteira para nunca mais regressarem. Às vezes, a velha porteira era deixada entreaberta, rangindo com o vento. Na mesma hora, o avô mandava um peão galopar até lá, resmungando alto que porteira aberta era uma coisa ruim, pois deixava entrar brujas em noite de lua nova.

***

Fermino ainda recordava de uma ou duas lições ouvidas do avô no alto daquele barranco. Como quando ele ensinava que a gente deve pôr de lado as coisas tortas, que não se pode consertar. A Fermino custaria quase uma vida para entender tudo o que o avô falava. A lição mais dura de aprender, foi a que rezava que o melhor castigo contra os maus, era tratá-los como se fossem bons.

O velho fazendeiro parecia acreditar que dias de chuva e vento eram o melhor remédio para se livrar dos pesadumbres. E o menino aprendera a se aquietar, aguardando que o sol da manhã apagasse as lembranças dos ventos roucos.

***

Fermino ouviu o pio de um gavião-carijó que voava baixo sobre o campo. Seguiu seu caminho, cruzou as coxilhas e deixou o cavalo conduze-lo até a velha porteira.

E, baixinho, recitou palavras que havia ouvido em algum lugar:

“As pessoas vão esquecer o que a gente disse. Também vão esquecer o que a gente fez. Mas nunca esquecerão os sentimentos que a gente despertou em seus corações.”

Sentiu-se leve e tomado por tolas quimeras de criança.

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