Por J. A. Moraes de Oliveira Fermino das Dores interrompeu o que estava fazendo e sentou-se na taipa de pedra para pensar na vida. Sentiu o ar frio em seus pulmões e acompanhou no céu uma perfeita formação de pássaros migratórios voando para o Norte. Naquele preciso momento, se deu conta que havia se transformado na pessoa que sempre quis ser.
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Além de sua carinhosa familia, Fermino tinha um punhado de bons amigos, cultivados ao longo dos anos. Do tipo que, mesmo depois de grandes ausências, quando se abraçavam, mantinham nos olhos e sorrisos o mesmo brilho de sempre.
Nesses momentos, parecia que os relógios haviam parado. Repetiam antigos gestos de carinho e falavam gírias fora-de-moda, que ninguém entendia.
Alguns deles haviam partido cedo demais, sem conhecer a liberdade que os sobreviventes haviam conquistado – a de fazer com sua vida o que bem entendesse. Eles se foram antes de provarem todas as pequenas felicidades e nem ao menos chegaram a ver seus cabelos prateados pelo tempo.
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Fermino prezava a vida que havia vivido e não trocaria o que ganhara pelo que perdera. Algumas vezes, se olhava de lado ao espelho, tocando de leve as rugas, as bolsas sob os olhos, o cabelo branco como algodão. Por um segundo, parecia que uma pessoa estranha, muito mais velha do que ele, o olhava de volta no reflexo. Chegava então a lamentar não ter mais os dentes e os cabelos negros da juventude.
Mas, por fim, entendia que a figura no espelho era o seu melhor amigo e que, na medida em que envelhecia, aprendera a gostar mais daquilo que se tornara e ficava menos crítico dos outros e de si mesmo.
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Fermino tinha ainda muitas coisas por fazer antes do dia terminar, mas por nada perderia aquele por-de-sol, que começava a colorir o céu com longas pinceladas vermelhas e amarelas.
Era uma boa hora para pensar no futuro.
Naquele fim-de-dia dourado, Fermino decidiu que gostava do jeito que estava envelhecendo. Não iria mais se questionar para tentar ser melhor do que poderia ser.
Ele havia conquistado o direito de estar errado.
Para festejar, passaria a comer no almoço e no jantar, as sobremesas que o médico lhe proibira.

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