Fiscal do Sarney e o networking aos cinco anos

Por Alexandra Zanela, para Coletiva.net

Você se lembra quando começou a fazer networking?

Em 1986, aos cinco anos de idade, ganhei o carinhoso título de 'Fiscal do Sarney'*, da comunidade onde vivia, em Constantina, no noroeste gaúcho. Tudo porque eu ficava na saída do supermercado perguntando o que a pessoa tinha comprado, o que teria de almoço/jantar. Se me agradasse o cardápio, me escalava para a refeição - e costumava oferecer uma música no violão como pagamento (eu tinha acabado de ganhar o instrumento e estava tendo aulas. Socorro!). Na maior cara de pau - característica que carrego até hoje com muito orgulho.

Aos cinco anos, obviamente, eu não sabia aonde esse meu desejo por conversar, entrar na casa das pessoas, saber da vida delas e pagar com um Raul Seixas de três acordes iria me levar. Sem contar que eu morava numa comunidade rural com não mais de 100 famílias e a palavra networking nem sonhava em passar pelo meu vocabulário.

Agora, aos 37 anos, tudo está claro. Fazendo um retrospecto da minha vida, consigo entender o poder do relacionamento, tanto para o mercado, como para um mundo melhor, e que o que eu fazia aos cinco anos já era networking - meio chucro, mas era. Tanto que até hoje quando encontro amigos da minha família, essas histórias sempre vêm à tona como uma lembrança positiva.

Gosto de pensar que relacionamento é um espiral infinito de possibilidades e que ele está em nossas mãos. Depois da liberdade do indivíduo, talvez este seja o bem mais precioso que temos. Mas o que fazer com esse capital social tão potente e capaz de mudar realidades? Assusta, não é mesmo? Me parece que assusta ainda mais por estar em nossas mãos. Não temos possibilidade de terceirizar o resultado - seja ele um bocado de negócios fechados ou a frustração de não conseguir sequer uma parceria.

Minha sugestão é que comecemos a ser menos egóicos, paremos de focar no nosso umbigo achando que o mundo existe a partir dele. O famoso 'ouvir mais e falar menos'. É preciso erguer a cabeça, olhar 360º, enxergar o diferente, fazer parcerias, trocas. Dar o braço a torcer e recuar quando preciso for.  Assumir que nem sempre estamos certos, nem sempre emplacamos todas e nem sempre temos a melhor ideia. Respeitar o lugar de fala, por exemplo, é uma forma de networking bastante potente.

Em tempos tão sombrios como o que vivemos, onde cada um quer garantir o seu - a qualquer custo ou grito - salvam-se no mercado da Comunicação os que conseguem manter os seus relacionamentos com respeito e honestidade.

Networking é troca, nem sempre o resultado é instantâneo, mas ele vem, com toda certeza. E como diz um amigo: CALMA!

*Fiscal do Sarney foi instituído em 1986, quando o então presidente, José Sarney, numa tentativa desesperada de frear a inflação, lançou o Plano Cruzado, que 'congelava' o preço das mercadorias. Todo cidadão era um fiscal do Sarney e podia, até mesmo, chamar a polícia se o estabelecimento aumentasse o preço dos produtos. Alguns usavam broches verde-amarelo.

O Plano Cruzado foi um fracasso, diferentemente do aprendizado sobre relacionamento e networking desta que vos escreve.

Alexandra Zanela é jornalista, feminista, diretora de Relacionamento da Padrinho Conteúdo.

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