Por J. A. Moraes de Oliveira Eu chegara ao sul da França naquele início de primavera, para assistir a um festival de vinhos em Chateauneuf-de-Pape e ao desfile dos cavaleiros da Camargue, em Arles. Mas alguma coisa fora do normal parecia estar acontecendo, ameaçando meus planos de passar alguns dias sob o azul sem nuvens do céu da Provença.
Tudo começou com um simples boato, de que a tradicional feira de flores em Aix havia sido cancelada. Logo a seguir, percebi as pessoas nas ruas, olhando apreensivas para o alto, como se o céu estivesse prestes a desabar sobre elas.
Em um pequeno bistrot de esquina, procurei respostas no “Le Provençale”. Na manchete, uma notícia pouca animadora: o quase centenário campeonato anual de boules – a bocha dos provençais – fora cancelado. Na última página, encontrei a explicação que procurava: a estação metereológica dos Pirineus anunciava que o Mistral estava chegando.
Eu já havia lido sobre alguns destes ventos mitológicos. O Sirocco, que no verão invade o sul da Europa, trazendo as areias quentes do Norte da África. O Passat, quando sopra dos Andes, faz o verão do Chile virar inverno.
E finalmente, o Mistral, o mais temido de todos, o vento das lendas e mistérios, que desde os tempos das conquistas romanas assombra homens, animais e colheitas.
Os provençais o tratam carinhosamente de sâcre vent, e dizem que ele nasce nas vastidões geladas da Sibéria, percorre as planuras da Europa Central e desemboca com fúria no vale do Ródano, a caminho do Mediterrâneo, atingindo até 180 quilômetros por hora.
Segundo as lendas, em plena primavera, o Mistral faz as temperaturas desabarem de 25 graus positivos para 10 negativos. Os bares fecham as portas, as pessoas trancam suas janelas, os cães uivam como lobos selvagens e as vacas parem seus terneiros antes do tempo.
Eu não estava dando importância àquelas estórias, mas comecei a ficar preocupado quando Maurice, o dono do bistrot, sentou-se muito sério à minha mesa e desatou a falar sobre o Mistral. Ele contou que, na última vez, casas foram destelhadas, chaminés foram derrubadas e os porcos voaram sobre os campos da Haute Provence.
Mas, para amenizar a apocalipse anunciada, Maurice piscou um olho cúmplice e arrematou: “Em compensação, a safra do vin du pays daquele ano foi excepcional. Ainda sobraram algumas garrafas, que posso ceder a Monsieur por um bom preço”.
Declinei da oferta e voltei para o hotel, pensando seriamente em deixar a Provence antes da chegada do sâcre vent. Mas, o gerente amavelmente me desaconselhou a deixar a cidade, lembrando que o trem para Marselha só sairia no dia seguinte e que as estradas ficariam intransitáveis com a chegada do Mistral.
Enquanto ele falava, os empregados fechavam cuidadosamente as janelas e portas do lado Norte do hotel. Ao mesmo tempo, notei que vários hóspedes bebiam tranquilamente no bar do restaurante.
“Fique mais alguns dias conosco, os ventos sempre castigam mais o fundo
do vale” – continuou o homem – “e nós estamos protegidos pelo Luberon e pelo Monte Ventoux“.
E, como quem compartilha uma confidência: “Hoje à noite, haverá uma degustação em nossa cave dos novos vinhos da região. E para o jantar, teremos ostras e peixes frescos do Mediterrâneo”.
Andei até a rua – nuvens negras se formavam sobre as montanhas e se sentia o ar quente e imóvel que prenuncia as grandes tempestades de verão. Mas já passavam das cinco horas e era tarde demais para viajar.
Lembrei-me que ainda não havia almoçado e fui conferir o cardápio do jantar e a lista de vinhos da degustação. Uma casserole de frutos do mar parecia tentadora e a sessão de vinhos estava na hora de começar. Resolvi ficar por mais uns dias – afinal, o Mistral não deveria ser tão terrível como nas estórias que Maurice contava aos forasteiros.
Desci a longa escada até a cave, instalada em uma espécie de caverna escavada na pedra sólida, e que, com certeza, havia resistido a muitos desastres naturais piores do que o Mistral. As pessoas que encontrei não pareciam nem um pouco preocupadas com o clima, examinando com atenção os rótulos das garrafas arrumadas sobre a longa mesa, já guarnecida com belos copos de cristal e tentadoras cestas de pães frescos e queijos maduros.
Um jovem sommelier, com o cordão dos Tastevin, abria garrafas de novos vinhos do sul da França e, à medida em que as taças eram enchidas, esquecemos as nuvens negras que rolavam no céu acima de nós.
O grupo de provadores era eclético e divertido. Alguns canadenses brindavam alegremente a cada taça servida. Um inglês, com um impecável tweed vitoriano, admirava longamente a cor dos vinhos, antes de prová-los. Devia ser o dono do belo Jaguar de oito cilindros, estacionado ao lado do hotel.
Um casal de parisienses, de cabelos brancos, sorvia cada gole com prazer, trocando olhares e sorrisos de puro encantamento. Ao meu lado, um argentino de fartos bigodes emitia comentários sobre a cor e o bouquet dos vinhos, comentando que pareciam quase tão bons como os tintos de Mendoza.
A degustação poderia durar a noite toda, pois muitas garrafas estavam pela metade, mas o sommelier encerrou a reunião, informando que o jantar ia ser servido e que teríamos lagostins e ostras frescas.
No lobby do hotel, algumas pessoas olhavam a praça e as ruas desertas.
Por alguns minutos, ali ficamos, vendo os ciprestes curvarem-se ao vento, cada vez mais violento. O calor da tarde desaparecera e a temperatura caía rapidamente, como se estivéssemos em pleno inverno.
Uma lareira crepitava na entrada do pequeno restaurante, aquecendo as pessoas e o ambiente. No centro do salão, um volumoso chef, de bigodes à Asterix, preparava uma casserole, de onde se desprendia o pungente aroma dos lagostins, dourados lentamente em ervas e azeite de oliva.
O jovem sommelier reapareceu, indo de mesa em mesa, sugerindo os vinhos brancos mais apropriados aos pratos que estavam sendo servidos.
Em poucos minutos, o salão foi tomado pelo murmurar da conversação, pelo tinir dos talheres e pelo tilintar dos copos, fazendo esquecer o Mistral furioso, que sibilava lá fora.
Durante o jantar, desfrutei algo mais do que comida, bebida e convivência da melhor qualidade – o espetáculo daquelas pessoas estranhas entre si, dedicadas aos prazeres do coração, deixando de lado os desastres da vida que não se podem evitar.

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