Artigos

Garanto que ouvi

Por Ronald de Carvalho A solidariedade humana tem fronteiras que o bom senso desconhece. A devoção que o ministro Paulo Brossard dedica à memória …

Por Ronald de Carvalho

A solidariedade humana tem fronteiras que o bom senso desconhece. A devoção que o ministro Paulo Brossard dedica à memória do ex-governador Synval Guazzelli é comovente.

Há duas semanas assiste-se a lances de esgrima entre Brossard e o jornalista Luiz Cláudio Cunha, autor do livro Operação Condor – O Seqüestro dos Uruguaios, em torno da reputação democrática de Guaz-zelli. Que o ex-governador colaborou por omissão, covardia ou convicção no seqüestro dos uruguaios Lílian Celiberti e Universindo Díaz, não há dúvida. Essa não é a razão do incômodo que assalta Paulo Brossard. O problema gira em torno da paternidade da Lei Falcão, que o livro de Luiz Cláudio Cunha, como um detalhe marginal das revelações, atribui a Synval Guazzelli. O jornalista informa que o ex-governador foi o pai da democraticida idéia e o ex-ministro corre em socorro dos brios libertários de Guazzelli.

À margem dessa discussão e também com tédio à controvérsia, posso dar um depoimento que lança luz à treva dessa história.

O núcleo da questão não é saber quando a Lei Falcão foi promulgada, mas a real inspiração que a criou. Disso, tenho certeza.

Na ampla sala forrada de livros de um apartamento na enseada de Botafogo, no Rio de Janeiro, ouvi o ministro Armando Falcão afirmar que a lei autoritária disciplinadora da propaganda eleitoral, promulgada à época da ditadura no governo Geisel, é de inspiração do ex-governador Synval Guazzelli. A Lei Falcão surgiu a partir de uma idéia oferecida ao general Ernesto Geisel por Guazzelli e que Armando Falcão, ministro da Justiça, a transformou em lei: a Lei Falcão.

Durante aproximadamente 10 meses, nos anos de 1987 e 1988, freqüentei o apartamento de Armando Falcão às terças e quintas-feiras. À época, era editor de política da Rede Globo e tinha Falcão como prestigiada fonte de informação. Em fins de 1987, convencera o ministro de Geisel a escrever um livro que revelasse inconfidências de seu período de governo. Ele, que sempre se valera de nada a declarar, teria a oportunidade de assinar um livro com o intrigante título de Tudo a Declarar.

Descontraído, bonachão e generoso nos sucos de fruta que oferecia, Falcão me recebia duas vezes por semana para a gravação de suas memórias. O gravador negro da Sony registrava os depoimentos que mais tarde seriam degravados por Beatriz, filha do ministro Falcão. Os 120 minutos de gravações diárias devem ter rendido cerca de 400 horas de fita. Era material suficiente para um livro robusto no peso e devastador nas revelações. Infelizmente, Armando Falcão, no final das gravações, resolveu expurgar do livro as informações que incomodassem os personagens ainda vivos e as horas se reduziram a 150. Não concordei em participar de projeto que nascia manco perante a história e mutilado para a verdade. Tudo a Declarar escondeu-se em um muito pouco a declarar de 430 páginas.

Muitas histórias se perderam. Narrativas deliciosas para a curiosidade histórica e assombrosas para muitas biografias. Assim foi com Synval Guazzelli. A indulgente decisão de Armando Falcão o livrou, até hoje, de assumir a responsabilidade pela inspiração da Lei Falcão.

A elegante e caridosa polêmica do ministro Brossard que me perdoe, mas nessa história sou testemunha. Garanto, ouvi.

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.