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Imitando Peter Mayle

Por J. A. Moraes de Oliveira O avião inclinou-se em uma curva suave e desceu abaixo do teto de nuvens. Pelas janelas, a luminosidade …

Por J. A. Moraes de Oliveira

O avião inclinou-se em uma curva suave e desceu abaixo do teto de nuvens. Pelas janelas, a luminosidade mediterrânea invadiu a cabine. Os passageiros percebem a mudança de rota e se entreolham, chamando as comissárias. Quase todos vestem ternos escuros e consultam os relógios, demonstrando contrariedade.

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Com um bom humor fora do comum, o piloto informa que os aeroportos de Paris se encontram fechados, devido a uma greve de pilotos da Air France, e que faremos uma escala técnica em Nice. Uma onda de oohs e aahs percorre o avião. Os antes silenciosos executivos, concentrados em seus laptops, agora estão agitados com a possibilidade de um atraso em suas agendas.

O alemão ao meu lado reclama que precisa estar em Paris naquele mesmo dia, para assinar um contrato de milhões. A comissária informa que há um TGV Méditerranée que liga Nice a Paris, mas dá de ombros quando ele pergunta quando sai o próximo trem. O alemão declara seu desapreço pela ineficiência francesa, resmungando que em seu país, trens e aviões sempre partem e chegam no horário.

Pela janela, vislumbro o recorte azulado das montanhas da Provence. O 747 nivela e pousa suavemente no aeroporto da Côte d”Azur. La Côte d’Azur

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No balcão da companhia aérea, ninguém sabe quanto tempo vai durar a greve, mas recomendam que os passageiros permaneçam no aeroporto. No quadro de Saídas e Chegadas, plaquetas com um enigmático “en retard” aparecem em todos os vôos do dia.

Meu vizinho de poltrona passa correndo, em direção ao ponto de táxi. Com um ar vitorioso, agita um guia de horários de trens. O TGV ganhou um passageiro – e um contrato de milhões será assinado hoje à tarde.

Telefono para a agência em Paris e me informam que todos saíram para almoçar e que as reuniões do dia foram canceladas. Meu estômago avisa que já passa do meio-dia e vou estudar o cardápio à porta do restaurante do aeroporto. Mas o plat du jour parece que é desanimador.

Decido que, depois de tanta anti-comida em aviões, a chegada à França merece ser celebrada com alguma dignidade. Em segundos, me chega à lembrança uma das minhas primeiras refeições em Nice. Era uma crepitante caçarola de lagostins, refogados na manteiga e alho, servida por uma sorridente niçoise de seios fartos. Me pergunto se aqueles lagostins terão o mesmo gosto de 20 anos atrás.

Ao sair, sou recebido pela luminosidade de um céu de topázio, as palmeiras da avenida ondulando com a brisa do mar. Tiro o paletó e a gravata, respiro o ar perfumado pela maresia e me declaro em férias     na Riviera Francesa.

***

A conversação com o motorista de táxi não é simples – o homem usa um sotaque provençal que em nada lembra o francês que se fala em Paris. Mas ele parece mudar de atitude quando peço para me levar a um restaurante na Rue de la Buffa, na parte histórica da cidade. Intrigado, ele me olha pelo retrovisor e confirma que o La Toque Blanche serve os melhores frutos do mar da Côte.

O táxi pára no sinal vermelho, ele se volta, me examina mais um pouco e começa a enumerar os melhores restaurantes da cidade. Parece que a menção de lagostins na manteiga e alho, foram a chave para conquistar sua boa vontade – e garantir um pequeno pour-boire do porteiro do restaurante.

Sou aconselhado a pedir como entrada a clássica Salade Niçoise, seguida de Tart Pissaladières, preparada com cebolas, anchovas e caillettes, as pequenas e suculentas azeitonas pretas cultivadas nas colinas ao redor de Nice.

O sinal abre, mas ele não dá importância às buzinas furiosas atrás de nós. Encolhe os ombros, manobra o Renault com uma mão, enquanto gesticula com a outra. Estamos na Vieille Ville, o bairro povoado de restaurantes e bistrôs com toldos coloridos e mesas nas calçadas.

O Renault faz uma parada diante de cada restaurante e ouço uma detalhada descrição de pratos e temperos, o que aumenta minha ansiedade – e a minha gula. Quando chegamos à Rue de la Buffa, o doublê de motorista e guia gastronômico arranca com o Renault, não sem antes gritar um último aviso sobre a Tart Pissaladières.

Curiosamente, seu francês havia perdido todo o sotaque provençal.

***

O La Toque Blanche tem apenas doze mesas, decoradas com gerânios mauve e imaculadas toalhas brancas. As grandes janelas estão abertas para o azul do Mediterrâneo.

Todas as mesas do salão principal estão ocupadas. Pergunto pelos donos, Giles e Diana Houbron, conhecidos na cidade pelo carinho com que recebem os visitantes. Logo Giles emerge da cozinha, limpando as mãos no avental. Finge me reconhecer e me conduz até uma mesa ao ar livre, em um pátio com lajes que parecem datar do tempo dos romanos.

Escolho os lagostins grelhados em manteiga e alho. Giles recomenda a terrina de foie gras, que ele acabou de preparar. Como acompanhamento, eu aceitaria algumas torradas salteadas em óleo virgem? O motorista provençal vai desculpar, mas o Tart Pissaladières fica para a próxima.

Ergo meu primeiro copo de blanc de blancs, em um silencioso brinde aos pilotos e aos motoristas de táxi franceses. Estou no paraíso, viajo amanhã para casa, mas já sei que sentirei saudades da luz, do azul e  destas fugazes emoções do passado.

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