Por P. C. de Lester*
Ao ver o ministro José Dirceu sufocado por uma barragem de microfones, um desavisado poderá pensar que temos imprensa demais. O problema é que ela está toda nos mesmos lugares. Nos gabinetes, nas ante-salas, nas assessorias, nos sets da tevê.
Nelson Rodrigues dizia que o verdadeiro jornalismo é o jornalismo policial, porque é na delegacia de polícia que uma sociedade revela sua verdadeira face.
Tivemos agora esse fato inqualificável, do assassinato em série de meninos de rua ou quase de rua, no interior do Rio Grande do Sul. A polícia cometeu erros clamorosos, mostrou-se negligente, despreparada. E a imprensa onde estava? Estava na redação, informada pela polícia.
A iniciativa isolada de um repórter demonstrou que se a mídia estivesse em cima dos casos, as coisas andariam de modo diferente. Mas, por que se importar? Eram meninos pobres, é a guerra do tráfico, deixa pra lá. Se houvesse um repórter fazendo perguntas aos delegados, tentando entrar nos xilindrós, ouvindo as pessoas próximas dos fatos, a condução da polícia seria diferente.
Essa é a questão: temos um poder público movido a mídia e temos uma mídia acomodada, que só vê o que lhe convém, quando lhe convém. Agora, por exemplo, baixou o silêncio sobre o assunto. É grave. Um caso como esse só tem desfecho satisfatório se a imprensa estiver em cima.
Nem toda a mídia é ruim, nem tudo na mídia é ruim. Mas essa sensação que ela pretende passar, de que dá conta de tudo, é falsa. Não temos informações em excesso, como parece. Temos falta, “carência alimentar”, de informação qualificada, que escape ao mexerico divesionista.
O que se tem, em escala industrial, é a informação homogeneizada, de baixo teor, que intoxica. É como ter que comer hambúrguer todo dia.
* Artigo publicado originalmente no jornal JÁ, edição 314.

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