Por Flávio Dutra Nos depoimentos que buscamos para a série de crônicas sobre a atividade extraconjugal, chamam a atenção os horários preferenciais para a prática do adultério. Ao dissecar o item, pretendo dar continuidade à série, fazendo a ressalva – alô Santa, alô família – que não se tratam de experiências pessoais, mas um interesse sincero em aprofundar esse aspecto do comportamento humano.
Pois bem, se há um padrão, por segurança e conveniência, a preferência é por horários alternativos. Quem se dedica à dupla vida amorosa precisa ser criativo, ensinam nossas fontes. Traição à noite ou de madrugada dá muito na vista em casa. Logo a patroa começa a desconfiar e em seguida o estoque de desculpas perde em credibilidade e criatividade. Jantar com clientes ou fornecedores, por exemplo, está em desuso. De tanto que foi aplicado já não cola mais.
Claro que uma esticada à noite, a pretexto de bater uma bolinha com os amigos ou reunir a confraria para uma cervejada, tem validade de vez em quando. Só não dá pra abusar. No caso do joguinho com os amigos, a vantagem é que você poderá tomar banho depois do encontro amoroso. Mas é importante mostrar em casa provas do seu álibi: uma camiseta molhada, meias fedidas, um par de tênis embarrado e outros itens que sugiram um jogo de verdade, disputado até o último minuto “contra aqueles babacas da Contabilidade”. Profissionais do ramo carregam no porta-malas do carro um kit completo, já “batizado”, para se prevenir. Bafo de cerveja não é problema porque as mulheres sabem que depois do bate-bola a gelada é inevitável.
Os mais dedicados à causa recomendam, nessas situações, que em nenhuma hipótese devem ser levados agrados para a esposa – tipo bombons, doces, flores. Esse gesto liga o desconfiômetro e aí, meu amigo, seus dias de libertinagem estarão contados, porque sua mulher vai querer saber de todos os detalhes do seu roteiro fora de casa. E vai crivá-lo de perguntas dignas de um lead jornalístico: quem, quê, quando, como, onde e por que. Isso ocorre com mais freqüência do que se imagina porque homens infiéis, mas de boa índole, são um poço até aqui de culpa e acreditam que agradando à esposa estarão se redimindo de seus pecados fora do lar. Os especialistas insistem: não faça isso, você vai se arrepender.
Infidelidade é escolha e se você optou por esse caminho, agüente as conseqüências. Ou então, pare de se torturar e volte para a sua vida normal, com mulher, filhos, cachorro, papagaio e a visita da sogra de vez em quando. Conheço histórias de homens que abandonam o lar por algumas horas e depois voltam para casa, pedindo perdão e rastejando qual um réptil. Para os que já fizeram sua opção e decidiram manter-se na ativa, selecionamos alguns cases sobre os horários preferidos para a prática do adultério.
M., profissional liberal, teve um caso ardente com uma universitária mais jovem do que ele. Com dificuldades para conciliar seus outros compromissos, preferia encontrar a parceira pela manhã, no intervalo entre uma aula e outra. A sugestão partiu da própria moça, muito dedicada aos estudos e mais dedicada ainda aos prazeres da cama. Ela mostrava grande interesse em complementar sua atividade acadêmica com práticas que exigissem menos do seu intelecto e mais de seu belo físico, se é que me entendem. O inconveniente é que a saliência tinha horário pra terminar. Apenas duas horas de intervalo separavam uma aula da outra e a estudante, como explicamos, era aluna aplicada. Por isso, freqüentavam um motel próximo à faculdade, mas não tão próximo que pudessem ser flagrados por algum colega ou professor desgarrado.
Nosso amigo batizou esses encontros de “seqüestro sexual” porque, na origem do processo, a moça se arrependeu da combinação acertada na véspera e ele ameaçou invadir a sala de aula, arrancá-la dos estudos e levá-la ao motel de qualquer jeito. Como era um sujeito decidido, ela não se arriscou ao vexame e compareceu ao evento acadêmico-sexual. E não se arrependeu, garante nosso amigo, tanto assim que repetiram a prática várias vezes.
Já C., homem de comunicação, recorda que seus melhores desempenhos ocorreram domingo de manhã bem cedo. Sem explicar como, ele sempre tinha uma pauta especial para cumprir nesse horário. A “pauta” no caso era um encontro com uma colega descasada. Ele conta que era intrigante, e ao mesmo tempo divertido, chegar aos motéis num horário em que os outros casais estavam se retirando. Chamava o encontro de “hora da Missa”, o sacrílego. Homem de família, ele tinha o cuidado de voltar para casa a tempo de preparar o churrasco dominical.
J., empresário do ramo imobiliário, tem preferência clara pelo horário do meio dia. O argumento dele é interessante: o horário gera menos desconfiança, afinal é o intervalo do almoço, mas tem suas vantagens porque reúne duas atividades prazerosas – sexo primeiro e depois a refeição, que encomendava logo que chegava ao motel. O inconveniente é que o tempo era exíguo e, além disso, não podia retornar ao escritório junto com a secretária, sua acompanhante nessas escapadas. Nada que uma mente imaginativa não resolvesse.
S., dedicado servidor público, se transformava quando marcava os encontros com a amante logo após o expediente na repartição. O fim de tarde tem sua magia, explicava ele. A noite chega de mansinho e com ela um clima romântico, que contagiava a relação. Além disso, o encontro nesse horário tinha sua praticidade. Depois da transa, vinha o jantar, e ele podia chegar em casa num horário civilizado, sem necessidade de ser criativo nas desculpas, que isso também cansa um vivente.
Estou perplexo com a reação feminina à primeira crônica. Pintou cada história! Se conseguir me recuperar do choque, repasso para vocês.

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