Por Roberto Andrade Assisti ao último episódio da série JK, na Globo. Confesso que fiquei emocionado. Me veio muita coisa à cabeça. Imagens desbotadas de um outro tempo. Um Brasil bem diferente, nas pessoas, nos fatos, na forma de se viver.
Lembro bem de meu pai, sério, incisivo, na cozinha de minha casa, lá pelos idos de 73, me explicando a importância de Juscelino para o Brasil. Meu pai era mineiro, porém, cidadão do mundo. Um homem fantástico, conservador, cheio de defeitos e virtudes, como devem ser os grandes homens.
No período em que Juscelino morreu, eu vivia no Rio Grande do Sul, um dos muitos lugares onde morei, talvez o mais importante na minha formação pessoal. No Sul, em plena infância – àquela época a adolescência não tinha essa importância toda – presenciei a construção do regime militar e as contraditórias manifestações da classe média ao brutal sistema que se instalava.
No Sul aprendi política, vivi a política, injetei este “vírus” em meu sangue, influenciado por todo tipo de correntes, discursos e práticas. Sou do tempo em que se liam livros e revistas às escondidas. Filósofos, sociólogos, antropólogos e pensadores eram vistos e ouvidos em segredo. E suas obras, discretamente, passavam de mão em mão. A repressão e o medo, inadvertidamente, frutificaram a solidariedade intelectual.
Reuniões no Grêmio Estudantil eram vigiadas. Namoros eram vigiados. Opiniões eram vigiadas. O trabalho era vigiado. E a vida era maravilhosa. Tenho uma permanente e sincera admiração por este período. Fiz tudo que podia e, principalmente, o que não podia. Fiquei de frente para o mundo, mesmo sem compreender muito bem o que estava acontecendo.
O povo mineiro, não tenho dúvidas, também foi parte intensa deste episódio do tempo em minha vida. Nos hábitos, no cotidiano, na fala, na rotina e na crise, os mineiros sempre tiveram uma forma extemporânea de conjugar, agregar e resolver grandes causas com afetividade e altivez. Um povo maravilhosamente provinciano. Sei bem o que é isso porque os gaúchos também são assim. Soube conhecer e desfrutar as culturas destes brasileiros tão diferentes e tão iguais.
Juscelino não foi mais ou menos competente que os políticos de hoje. Foi melhor. Este é, de fato, o ambiente conceitual onde realmente vale à pena ser compreendida a época de JK. Ser melhor em política e na vida significa ser melhor, nada mais. Coisas óbvias, que correm pelo sangue das pessoas decentes, simples ou sofistificadas. Nos anos 50 e 60, o Brasil simples e sofistificado ainda olhavam um para o outro.
Deste período veio a última safra de homens públicos que transformou o País em um projeto de Nação. Juscelino, Brizola, Arraes, Prestes, Lacerda, Tancredo, Ulysses. Talvez mais dois ou três. Todos com enormes diferenças ideológicas, mas compactuados em uma discreta missão cívica com o Brasil e os brasileiros. Comparados aos políticos de hoje, eram cristal fino.
No final das contas, fiquei feliz com o último episódio da série JK. Nem sei se a história foi respeitada com rigor. E isso, também, não faz tanta diferença na teledramaturgia nem na vida real. O importante é a idéia passada de homens e mulheres com bom caráter, justos, desprovidos da torpeza corporativa que infecta o Brasil de hoje, onde não há mais a Lei de Gérson, ensinando que o importante é ganhar, e sim a Lei de Jefferson, onde o importante é roubar. E, principalmente, não ser punido por isso.

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