Por Mario de Almeida*
Assim como esse artigo não é a favor e nem contra o jogo, não é, também, nem a favor e nem contra o Governo Federal, mas é contra a hipocrisia.
Um acontecimento menor, envolvendo um assessor do ministro Zé Dirceu – Waldomiro Diniz – e um “banqueiro” de jogo – Carlos Cachoeira – gerou uma medida intempestiva e de efeitos catastróficos para um Governo que se elegeu, inclusive, com a promessa de gerar 10 milhões de novos empregos. Como nesse pouco mais de um ano de Governo, foram gerados milhões de novos desempregos, claro que esse não seria o momento indicado para uma medida provisória que aumentasse ainda mais essa imensa angústia da sociedade brasileira.
Face às muitas dificuldades e aos problemas de nossa realidade, uma Medida Provisória, ou seja, uma medida de caráter urgente, a respeito de bingo e caça-níqueis é piada de mau gosto. Por um voto de diferença e por decisão pessoal de cada votante, o Senado rejeitou a MP. O fato menor imputado ao sr. Oswaldo, mal digerido, resultou em grande indigestão.
A hipocrisia a que me refiro, desde o título desse artigo, não é deste Governo e sim uma hipocrisia histórica, desde o próprio Governo Dutra. Os ditadores militares, por exemplo, usando de poderes sobrenaturais, acabaram com a subversão e multiplicaram a corrupção. Desde Dutra o Governo Federal desconhece a contravenção explícita do jogo do bicho e nunca -nunca – houve por parte do Governo Federal qualquer tentativa ou menção para se acabar com a contravenção. Os governantes estaduais são corrompidos pelos “banqueiros” ou são coniventes com a corrupção. Nenhum Ministro da Justiça até hoje intimidou um governador, através da Polícia Federal, para acabar com o jogo do bicho, cassinos clandestinos etc. etc.
O jamais saudoso Ademar de Barros, governador paulista auto-proclamado como corrupto – “rouba mas faz” – criou a “caixinha”. Banqueiros do bicho e bookmakers em São Paulo tinham agências nas ruas, tão escancaradas como as agências bancárias.
Comentaristas de respeito do Rio Grande atribuem ao caso de um assessor e o jogo do bicho, um dos motivos do insucesso eleitoral do PT nas últimas eleições estaduais.
No Rio, a então juíza Denise Frossard conseguiu colocar em cana, por um bom tempo, os mega-“banqueiros”. O funcionamento do jogo ficou absolutamente igual e ficará durante todo o tempo que persistir a hipocrisia de que o problema não existe. Não há meio termo, ou se legaliza o que hoje é ilegal, ou se acaba com a ilegalidade. Enquanto isso não acontece, viva a corrupção. Essa do Governo fingir-se de avestruz alimenta uma das bandas da corrupção cabocla e parte do crime organizado.
Moro na Barra da Tijuca, no Rio, e se eu traçar um círculo imaginário com 150 metros de raio, estarei colocando dentro, no mínimo, três “apontadores” do jogo.
Outro dia, um colunista de O Globo deu uma nota sobre uma jovem que pagou 300 reais para um motorista levá-la a um bingo clandestino ao lado de Niterói e esperá-la por duas horas. Isso não é exatamente um emprego indireto, mas ajudou muito na “féria” do taxista.
Já disse que este artigo não é a favor nem contra o jogo (assunto que não me interessa) e o atual Governo. Mas não é uma senhora hipocrisia o Governo Federal – desde há muito o maior banqueiro de jogo – enviar uma medida urgente para acabar com as casas de bingo?
Quanto a mim, em julho, vou passear uma semana no Nordeste e, entre os entretenimentos programados, há uma noite jogando no preto, 17, na roleta.
Deseje-me boa sorte. Afinal, não sou avestruz. Sou, no máximo, um mini contraventor.
P. S.: A reação à matéria do NY Times foi tão burra que fiquei pensando se, no Planalto algum doutor em Maquiavel não sugeriu: – Expulsa o correspondente que a Imprensa toda vai se esquecer do Waldomiro, dos bingos, da derrota no Senado e das outras nossas trapalhadas…
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio) e co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos).

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