Por Bruno Rodrigues
No final do ano passado, dei uma entrevista com algumas ‘previsões’ de como a mídia digital irá se comportar em 2007. Falei em publicidade online, vídeo, comunidades virtuais. Mas fiz questão de ressaltar que a grande mudança virá com o embate final – e definitivo – entre jornalismo profissional e jornalismo cidadão.
Acompanho atentamente o affair há três anos, quando muitos falavam que tudo não passava de modismo, que em algum momento o bom-senso viria em socorro do jornalista formado, experiente e tarimbado, o que afastaria de vez os cidadãos comuns, aventureiros da internet que ousavam invadir o terreno da produção de notícias.
Mas o bom-senso não viu, ou simplesmente ignorou a invasão dos ‘bárbaros’. Ávida por mais uma dose de novidade – vício, será? – a web arrancou o jornalismo cidadão da clandestinidade, deu-lhe nome e apelido (‘jornalismo colaborativo’), vestiu-o de fraque e colocou o pobre coitado no centro das atenções. Estava feito o estrago.
O cidadão nunca pôde, de fato, tomar o lugar do jornalista. Da mesma forma que a mídia – ai de nós – fez de YouTube & cia. as estrelas do momento, a verdade é que apenas uma minúscula parcela dos internautas produz vídeo ou notícias para a internet.
Para quem é consultor em informação para a mídia digital, como é o meu caso, há momentos em que me vejo obrigado a esclarecer que nem tudo que reluz na Rede é ouro, e lembrar que emissor é muitíssimo diferente de receptor.
Muitos assistem vídeo pela internet – neste caso, falo em milhões. Outros produzem vídeo e o colocam na Rede – milhares, apenas. O mesmo acontece com sites de notícias em que os cidadãos ‘apuram’ e enviam suas ‘matérias’ para publicação. É exceção, acredite. E a experiência já está indo pelo ralo.
O site ‘OhMyNews’, exemplo de jornalismo cidadão e um dos pioneiros na área, ameaça fechar as portas dentre em pouco. O ‘Backfence’, mais moderninho e recente, está pendurado no barranco, balançando, quase caindo. Segundo o jornalista Charles Arthur, do ‘The Guardian’, o motivo é óbvio: não é tudo mundo tem tempo para brincar de jornalista. Em tempo: sabe o YouTube? Só 0,5% dos usuários publicam vídeo. E na Wikipedia, enciclopédia online respeitadíssima, 70% dos verbetes foram publicados por apenas 1,8% dos freqüentadores…
O jornalismo cidadão irá desaparecer inteiramente? Claro que não. Mas, se tivéssemos visitado mais os sites que tanto criticamos e dado menos atenção às inúmeras matérias sobre o assunto, teríamos notado que o perigo não era tão grande assim.
Da próxima vez, menos gritaria e mais apuração, portanto.

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