Jornalista ou artista? A tênue linha divisória

Por Júlio Sortica, para Coletiva.net

Em 45 anos de Jornalismo, me habituei a acompanhar o tratamento de notícias e informações de todos os tipos nas mais diversas plataformas. Embora tenha me dedicado quase que exclusivamente à mídia impressa, sempre fui um apaixonado por rádio. E, agora, com mais tempo, costumo girar o dial várias vezes ao dia, acompanhando muitos programas das mais variadas emissoras nas quais tenho grandes amigos e colegas. Mas a minha preferência são os programas de Jornalismo, tanto geral, como esportivo e político e menos de entretenimento e musical. E tenho notado profundas mudanças nas programações, sempre buscando aprimoramentos, claro. No entanto, o comportamento dos comunicadores também tem mudado e, no meu ponto de vista, não tanto em benefício do Jornalismo, mas de um, talvez, não percebido marketing pessoal.

Afinal, quem apresenta um programa de rádio, em qualquer emissora, é um jornalista ou um... artista? Sim, faço esse questionamento porque tenho percebido com frequência e em diversas emissoras, que muitos jornalistas parecem ter incorporado o manto de artistas. É que minutos preciosos que poderiam ser dedicados à divulgação de notícias, campanhas, avisos, etc., acabam sendo destinados a, perdão colega, "abobrinhas", "rasgação de seda" ou "babação de ovo", como se costuma dizer na gíria. É um tal de elogia daqui, citação de roupas que o fulano usa, de show que beltrano assistiu, de carro que trocou, do filhinho que fez xixi.

Como jornalista, creio que não é a forma mais adequada de aproveitar o preciso (e caro) tempo de rádio. Como ouvinte, não sei exatamente se isso me agrada.

Essa relutância se justifica porque entendo que jornalismo de notícias de interesse público e coletivo deve ser um jornalismo sóbrio, correto, sem mimimis, nem baboseiras. Claro que muitos dos programas que escuto têm feito entrevistas sérias, interessantes, participado de campanhas e divulgado notícias, mas tempos atrás esse "rumo perdido" em um programa de jornalismo durou quase cinco minutos... demais até para o mais paciente ouvinte e admirador ardoroso. Antecipei o giro no dial e procurei outro programa.

Não sou, absolutamente, contra as brincadeiras, os comentários ardilosos ou algumas piadas interessantes... mas nos programas adequados, os de entretenimento, diversão e até um insert em um programa musical. Não nos jornalísticos. E não me venham com a justificativa que é para "descontrair" o ambiente diante de notícias pesadas. Jornalismo noticioso, de opinião é para ser sério, sóbrio e que passe ao ouvinte a sensação dessa seriedade, de jornalismo verdade. Se for para ouvir piadas e brincadeiras, comentários sobre perfil e moda de apresentadores, criem um programa específico.

Não quero que pensem que sou um veterano chato e saudosista, que o público gosta disso e ponto final. O público gosta do que é bom no rádio, mas tem a hora do jornalismo e tem a hora do entretenimento: cada um no seu quadrado garante a boa audiência.

Júlio Sortica é jornalista.

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