Por Maicon Tenfen
Juarez Porto faleceu na madrugada do último domingo. Prejuízo para o jornalismo, que perdeu um peso-pesado, e prejuízo para a comunidade, para os amigos, para a família. Jovem para cruzar o Estige, recebeu um empurrãozinho do câncer, que lhe atacou o fígado com uma violência inexorável. Na semana que vem, 3 de março, chegaria aos 52. Também poeta e artista plástico, tinha muito chão para pisar.
– “Não fiquem assim me olhando” – escreveu certa vez. – “O espetáculo acabou, aplaudam por favor ou vão embora, terminou. Temos que apagar as luzes, varrer o picadeiro e dar de comer aos animais.”
Pobre platéia de circo, esta crônica se levanta e aplaude com efusão. Vibramos com aquelas cambalhotas, com os saltos mortais, com a habilidade do malabarista, com a singeleza do palhaço, com a doida caminhada sobre o arame, lá em cima, sem rede.
Bukowski acreditava que intelectual é um homem que diz coisas simples de maneira difícil; artista é o inverso, diz coisas difíceis de maneira simples. Juarez Porto era artista. No nanquim, no bico-de-pena, nos artigos, na poesia. Caprichoso do estilo, surpreendia nos textos mais corriqueiros.
De tudo que produziu, nada se iguala, na minha opinião, às crônicas publicadas no Santa entre 1995 e 1999. As Aventuras da Família Blumenau (como poderia ser chamada a sessão) deram muito pano pra manga. Personagens como Hans Júnior, Edith, os filhos e especialmente a Oma Trude, “alemoa” da gema que não ocultava sua “alerrrchia a perrrdedorrres”, sintetizaram com grande humor o que representa a elite local e o que ela é forçada a fazer para se adaptar aos novos tempos.
Houve aplausos e estranhamento, risos e fúria, simpatia e ranger irado de dentes. Todo mundo queria saber quem era esse tal Ricardo Santarém, que assinava a coluna. Descobriu-se mais tarde que era o Juarez (quem mais?), na época editor-chefe do jornal.
Tivemos nossa última conversa no finzinho do ano passado, durante o Fórum de Literatura organizado pela Fundação Cultural de Blumenau. Ele me chamou até a janela e apontou para o outro lado da rua. Avistei um homem varrendo o pátio.
– Percebeu? – disse ele.
– O quê?
– Um conto.
– Conto? Como assim?
– Desde cedo aquele sujeito está varrendo a calçada, não pára um minuto, mesmo que não haja mais sujeira. Quer tema melhor? Se você não escrever, eu escrevo.
Esse era o Juarez Porto, artista. Onde víamos um trabalhador no seu ofício diário, ele via uma metáfora da vida. Não varremos apenas para espantar o pó. Varremos porque, bem ou mal, aqui estamos para varrer. E vamos varrendo, varrendo, até que num belo dia, por causa do vento, por causa de nada, a vassoura dá um pinote e se escapa das nossas mãos.
Fique em paz, Juarez. Os tapetes já foram batidos. E os seus pátios, eles sempre estiveram limpos.
* O artigo foi publicado originalmente no Diário Catarinense, em 26/02/2004

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