Por Sérgio Capparelli
No ano passado, todos discutiam na Itália a formação de rondas, em que as milícias “cidadãs" caçariam imigrantes irregulares e outros indivíduos indesejáveis, como, por exemplo, os ciganos. Este ano a sanha de certos grupos italianos arrefeceu. Eles prometem agora redes de vizinhança voltadas para a proteção mútua contra imigrantes e estupradores.
Mas não é só isso. Diariamente a televisão multiplica nos telejornais notícias sobre a criminalidade dos estrangeiros que moram na Itália. E os municípios legislam sobre a preservação das raízes históricas do país, rediscutindo a identidade nacional e condenando o multiculturalismo.
A grande novidade são as proibições de expressões populares dos estrangeiros. Até representantes da esquerda pegaram a febre. Raffaele Cortesi, prefeito do Partido Democrático, de Lugo di Romana, proibiu rezas e símbolos religiosos nos enterros, citações bíblicas e despedidas estridentes ao vivo. Essas manifestações exteriores, como o choro sem compostura, estão “proibidíssimas”, especialmente se quem chora o faz voltado para Meca. Ele, como tantos outros, diz que rezar diferente é um complô contra o rezar italiano.
E lanternas chinesas em Milão, durante as festas do Ano Novo Lunar? Proibido! Todos preferem que os chineses arredondem seus olhos e assim vejam um mundo circular, como a Praça São Pedro, no Vaticano.
Cláudio del Frate e Andréa Galli, em um artigo no Corriere della Sera explicam bem essa mania de ordem: a campanha contra o cuspe, por exemplo, dirigida à comunidade indiana de Monfalcone e o desejo de Enzo Bortolotti, prefeito de Azzano Decimo, de só permitir venda de kebab, cuscus e frango ao curry se acompanhados de polenta.
Em 12 meses, de julho do ano passado a agosto de 2009, foram 788 decretos municipais para regular esse estado de espírito, dois por dia.
Em Bréscia a prefeitura paga 500 euros para cada imigrante clandestino capturado. E a partir de agora, se alguém quiser morar em Ospitaletto, deve acrescentar folha corrida da polícia aos papéis indispensáveis para obter a licença de residência. E em Cernobio, nas margens do Lago Como, quando dois apaixonados decidem se casar, a Prefeitura envia guardas municipais ao futuro lar dos pretendentes para se certificar de que as paredes e o assoalho da casa estejam limpos e que os banheiros funcionam. Mas já há vereador anunciando que a lei será ainda mais rígida e futuramente os guardas irão verificar, por exemplo, se antes da cerimônia os noivos limparam os ouvidos com cotonetes.
No Brasil, esses fatos equivaleriam a proibir a venda de pizza, já que pizza não é comida nacional. Ou proibir massa a bolonhesa sob pretexto de que Bolonha não é uma cidade nossa. Ou, finalmente, exigir sushi e sashimi no bairro da Liberdade, em São Paulo, com feijoada ou mocotó.

