Por J. A. Moraes de Oliveira Quando soube que as máquinas amarelas de terraplanagem estavam derrubando as cercas da fazenda de “seu” Acácio, Tio Alvinho cavalgou até a casa grande para alertar meu avô Patrício.
Que o ouviu em silêncio, com seus olhos azul-aço percorrendo as coxilhas ao longe. Com voz pausada, explicou ao filho que era o início das obras de construção da nova estrada federal que iria até a fronteira com o Uruguai.
Mas meu Tio Alvinho respondeu impaciente que não precisávamos de uma estrada para a terra dos orientales e que não iria deixar que os tratores e as patrolas do governo atropelassem suas ovelhas e seus cavalos.
Meu avô Picurra continuou, dizendo que os papéis de desapropriação estavam muito atrasados, mas que o governo prometera indenizar os fazendeiros prejudicados pelas obras da estrada.
Naquela manhã, Tio Alvinho não exibia o habitual riso branco e franco sob seus fartos bigodes negros. Ele ouvia meu avô em silêncio, mas mostrava impaciência, batendo repetidamente com seu rebenque de cabo de prata no cano das botas.
Eu e minha mãe assistíamos a conversa da porta de casa. Ela sussurou ao meu ouvido: “Teu avô está preocupado com alguma coisa.”
***
Tio Alvinho montou em seu grande cavalo zaino e saiu a galope para o campo, levantando poeira na terra batida.
Meu avô voltou para a casa, olhando para o chão e mostrando sinais de contrariedade.
Dona Ana Augusta veio lá da cozinha, enxugando as mãos em um grande pano de pratos. Em um instante, percebeu que alguma coisa estava fora do lugar e interrogou o marido com os olhos.
Ele chegou com um sorriso, mas seus olhos continuavam sérios: ” Parece que o Alvinho encontrou um chucro que não vai conseguir domar.“
No dia seguinte, minha avó nos contou que Tio Alvinho, tão revoltado com a invasão das máquinas, fora procurar o delegado de Tapes.
Exigiu que o delegado prendesse os engenheiros do governo, que estavam medindo campos do outro lado das coxilhas do Rio Camaquã.
Quando a autoridade explicou que não poderia fazer aquilo, saiu furioso da delegacia, ameaçando furar a tiros os pneus do primeiro trator que invadisse seus campos.
***
Os dias que seguiram foram tranqüilos na grande fazenda, os peões cuidando dos rebanhos na várzea diante da casa e meu avô indicando as ovelhas que deviam ser apartadas para serem tratadas ou tosquiadas.
De cima da cerca da mangueira, vi o grupo a cavalo subindo a estrada dos eucaliptos. Meu avô também os viu e deixando suas lides, foi receber o grupo.
Era quase hora do almoço quando os visitantes desceram a estrada de volta à porteira do Passo Grande. Eram desconhecidos, mas minha mãe sussurrou-me que o homem de chapéu preto era o delegado de Tapes.
Corri para dentro de casa e quase esbarrei em meu avô, que conversava com meu tios Deoclécio e Dedé. Pareciam preocupados, mas minutos depois, meu avô sorriu e me chamou.
Caminhamos até a horta nos fundos da casa, onde ele começou a colher pêssegos maduros, enquanto eu esperava, com medo de perguntar o que tinha acontecido com o Tio Alvinho.
Vovô Picurra percebeu minha preocupação, alcançou-me uma cesta cheia de grandes pêssegos dourados e disse que eram para minha mãe.
E, antes que eu me afastasse, tocou-me no ombro:
– Teu Tio Alvinho está bem. O delegado lhe confiscou o revólver e a Whinchester, mas ele não se conformou e tentou laçar o primeiro trator que entrou na fazenda.
E com um sorriso cúmplice:
– Acabou laçando o pobre do tratorista que levou um susto, saiu correndo com os cachorros atrás e não voltou mais.

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