Por J. A. Moraes de Oliveira Na fazenda do Passo Grande de minha infância, os livros eram poucos e as leituras eram as mesmas, verão após verão. Nos dias de chuvarada, os homens se recolhiam aos galpões enfumaçados e as mulheres ficavam pela cozinha, preparando doce de goiaba e lingüiça de porco. Pouco restava por fazer, a não ser reler as mesmas revistas “Para Ti” e os velhos almanaques do “Eu Sei Tudo”.
Eu não passava de um menino curioso, sempre querendo saber mais das lendas campeiras, das peleias dos tempos de revolução e dos velhos gaudérios que haviam conquistado aquelas terras, a pata de cavalo.
Mas eram estórias que andavam de boca em boca e que os mais velhos evitavam contar na frente dos mais novos. Diziam que não eram coisas para ouvidos de crianças. E a nós, restava esperar ansiosos pela festa dos Reis, quando chegavam os payadores. Eles comiam até fartar, então empunhavam alegremente as guitarras e cantavam noite adentro, inacreditáveis estórias de tempos há muito passados.
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Eu me quedava a um canto, os olhos pesados, mas de boca e ouvidos abertos, tentando acompanhar a estranha mistura de realidade e fantasia, que transformava o mesmo raconto em diferentes estórias, conforme a idade e a lucidez do contador. Muitas vezes, quando a memória falhava, o paisano, entre um gole e outro de caña de guampa, não hesitava em acrescentar detalhes de sua própria invenção.
Durante uma tal noite de ventania, meu tio César ouviu do mesmo payador, trovas diferentes sobre a morte de Blau Nunes. Na primeira, o tapejara era abatido a lançaços por um bando de orientais renegados. Na outra, ouvida na estância vizinha, a estória contava em detalhes caprichados, como ele tombara como herói, fuzilado pelas costas pelos covardes imperiais.
Quanto mais distante no tempo e na paisagem, mais se exagerava na valentia dos heróis e na covardia dos inimigos. Os correntinos eram frios degoladores de peões inocentes e os farroupilhas, heróis de jaça e sem mácula. Ou o oposto, conforme com as cores do lenço no pescoço do cantador.
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Eu já era crescido, quando meu Tio Alvinho, domador e tropeiro por profissão, contou de sua viagem a cavalo até o lado oriental para arrecadar uma ponta de gado. E que, em Treinta y Tres, surpreendido por um temporal de saraiva, se hospedara no rancho de Paco Cabrera, um conhecido ladrão de cavalos. Ali, foi obrigado a ouvir estórias de guerra que o fizeram se arrepiar debaixo do poncho. Mais de raiva do que de frio. Segundo o uruguaio, os castelhanos haviam sido vencedores em todas as guerras e em todos os entreveros dos dois lados da fronteira, mesmo aqueles que a história nem registrara.
Lá pelos princípios de janeiro, quando chegavam os cantadores de Terno de Reses, havia motivos de festança e muito churrasco de carne de ovelha. Todos se aprumavam para ouvir os visitantes, que enquanto comiam, já contavam as novidades dos lugares que já tinham visitado e, em troca, queriam saber do que havia de bom e de ruim na vizinhança, para contar nas próximas estâncias.
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Quando as longas cantorias entravam pela madrugada, as mulheres mandavam as crianças para a cama e logo as seguiam, com bocejos de tédio. Quanto aos homens, continuavam ao redor da fogueira, insones e atentos às trovas e ao dedilhar das guitarras. Em nossos quartos, ainda excitados com a agitação do dia, adormecíamos, ouvindo os cantos e as risadas que vinham do galpão.
O medo que eu tinha dos pesadelos era maior do que o sono. Olhava as sombras, esperando surgir a qualquer instante os personagens das estórias que ouvira dos trovadores. Me lembrava das velhas lanças enferrujadas, guardadas no girau das cocheiras e da garrucha de cano duplo que encontrara um dia, enquanto brincava com os cachorros nos fundos da casa. Quantos teriam morrido na ponta daquelas lanças ou varados pelo chumbo da garrucha?
Inútilmente, tentava afastar o sono, mas ele logo chegava, trazendo sinistros cavaleiros que desciam das nuvens, com longas barbas negras e afiadas lanças, apontadas para mim.

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