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Lendo Pessoas

Por J. A. Moraes de Oliveira Ele era baixo, moreno, com barba rala e tinha um ar inofensivo. Logo pela manhã se instalava no …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Ele era baixo, moreno, com barba rala e tinha um ar inofensivo. Logo pela manhã se instalava no pequeno nicho da janela da biblioteca, de onde podia avistar as alamedas de tílias do Patio de las Escuelas, caminho de alunos e professores que freqüentavam o prédio de granito rosa da mais antiga universidade da Espanha.

Daquela janela, ele se permitia um inofensivo passatempo, que não mencionava a ninguém, muito menos aos compenetrados colegas de cátedra. Brincava de adivinhar o estado de espírito das pessoas, interpretando o ritmo de suas passadas ou os movimentos involuntários de cabeças e mãos.

No começo, não deu importância às interpretações que fazia, considerando-as um mero jogo de observação da natureza humana. Mas com o passar do tempo, sentiu-se incomodado ao perceber que os retratos começavam a ter sentido e a ganhar mais consistência.

***

Era como se estivesse lendo à distância a alma das pessoas. Seria uma espécie de capacidade mediúnica que ele nunca desconfiara ter? “Absurdo”, pensou – isso eram cosas de brujos e não tinham lugar em sua formação acadêmica em teologia e antigas religiões. Mas, ao mesmo tempo, sentia-se fascinado com a possibilidade de desvendar a alma de pessoas que nunca vira antes.

Por cautela, passou a anotar em um livro de capa vermelha as observações para lê-las à noite, antes de adormecer. E fez pequenas fichas individuais para os que passavam nos mesmos horários, todos os dias.

Como não conhecia os nomes, inventou apelidos para os mais notórios: um era o “garoto-ruivo-que-esconde-o-cigarro” e o que vinha a seguir, o “burocrata-gordo-que-meneia-a-cabeça-quando-passa-pela-capela”.

Outros personagens o intrigavam em especial, alguns dos quais bem difíceis de decifrar, como o homem de bengala, que media os passos, para não pisar nos rejuntes das pedras do caminho. Este passou a ser o “salta-pocinhas”.

De manhã bem cedo, era a hora da “namorada-do-cipreste”. Ela era alta e ruiva e caminhava ereta como uma professora de educação física.

Ao final da travessia, ela olhava para os lados e abraçava demoradamente o tronco do grande cipreste na curva da alameda. Terminado seu pequeno ritual matutino, se aprumava, recuperava a pose e seguia ao encontro de seus alunos.

***

Durante as noites de insônia, o professor procurava estabelecer alguma relação entre as anotações e a tese que estava escrevendo sobre crenças e ritos antigos.

Lia e relia as anotações, por vezes atônito com o que havia escrito durante o dia. O que mais o incomodavam eram as previsões que fazia – quase premonições – do que poderia acontecer àquelas pessoas.

Em uma manhã, quando chegou à janela, sua atenção foi atraída por um homem usando uma longa capa e que andava a passos largos e pesados. Fazia gestos bruscos para um interlocutor invisível e seu rosto mostrava grande ansiedade. Parecia descontrolado, como quem luta com um demônio interior.

Quando o homem desapareceu por uma porta do Instituto de Filosofia, o professor em um impulso anotou: “Homem-de-capa: sinais de culpa e medo, parece procurar um inimigo”. E acrescentou uma frase que o perturbaria mais tarde:

“Alguma coisa ruim está por acontecer.”

Dois dias depois, correu a notícia que o homem-de-capa fora advertido pela reitoria e suspenso por 10 dias. Ele havia agredido uma aluna em plena sala de aula.

***

Pela centésima vez, o professor olhou as pessoas que passavam lá embaixo. Decidiu não mais escrever sobre elas, sentindo-se assustado em saber de fatos que ainda estavam por acontecer. Largou o livro de notas e desceu até o pátio, e sentando-se em um banco na alameda central.

Lá estavam as mesmas pessoas que ele observava de longe. Reconheceu os movimentos de braços, os gestos involuntários quando coçavam a cabeça ou mexiam nos livros. Agora, bem de perto, ele podia ver detalhes que antes lhe escapavam.

Podia notar os olhos das pessoas – que revelavam mais do que as mãos e os passos. Era quase possível saber o que estavam pensando. Alguns tiravam moedas dos bolsos e as olhavam com um ar de surpresa; outros consultavam repetidamente o relógio de pulso, mesmo tendo em plena vista o grande carrilhão da torre da biblioteca.

Mais uma vez, assustou-se com suas conclusões: “Este é o professor angustiado porque não preparou as aulas”.

Ou: “Ali vai o aluno de filosofia que sempre dorme fora do alojamento”.

À sua frente passava um personagem de quem havia feito uma anotação dias antes: “Um homem muito gordo, com barba negra e que sofre do coração”.

O homem não conseguiu chegar ao final da alameda. Parou e apoiou-se em uma árvore, para não cair.

O professor foi até ele e perguntou o que havia. O homem tinha a barba molhada de suor e sentia dificuldades em respirar. Com uma careta, tirou um vidrinho do bolso e engoliu uma pílula redonda.

Outras pessoas vieram em auxílio, mas o homem já se recuperara, retomado seu caminho, sem olhar para trás. O professor teve a certeza de que aquele homem tinha poucos dias de vida.

***

Neste momento, a alameda ficou deserta por alguns minutos, a não ser por algumas andorinhas e cotovias. Um vulto alto, com um chapéu mole enterrado na cabeça avançava em sua direção. Eram passos arrastados, de alguém que carrega o peso de uma grande culpa.

Quando chegou perto, o professor registrou seu cenho franzido e um olhar duro, fixado no caminho à frente. Segurava com força demasiada uma pasta junto ao corpo, como se ali guardasse seu destino.

O homem chegou até o prédio de granito rosa e desapareceu por uma das portas. O professor soltou o ar preso nos pulmões, sentindo uma estranha opressão, como se uma sombra passasse sobre ele. Aquele homem alto parecia saber que caminhava em direção a uma tragédia.

***

O professor de Salamanca não conseguiu conciliar o sono, revirando-se na cama, assombrado por seus presságios sobre a vida das pessoas.

Acordou com a boca amarga e com a mesma opressão da véspera. Ao passar pela banca de jornais tentou desviar o olhar, mas a manchete estava estampada na capa da “Tribuna de Salamanca”: “Crimen Pasional en la Universidad”.

Não comprou o jornal, porque sabia do que se tratava. Subiu à biblioteca, jogou fora o livro de notas e voltou à sua tese sobre duendes e feiticeiros.

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