Por J. A. Moraes de Oliveria Falavam que ele era o melhor operador de guindastes em todo o cais do porto. Eu nunca o encontrei, mas conhecia as estórias que meu pai contava – sobre um negro alto e corpulento, que andava encarapitado no alto dos guindastes e que nunca deixava os armazens do porto.
Quando meu pai chegava em casa, mesmo antes de afrouxar o nó da gravata, me chamava para contar uma estória do cais do porto. Em quase todas, o personagem era o Malaquias. Do outro lado da mesa, eu ouvia calado, matutando como seria aquele personagem, que andava com uma enorme chave inglesa vermelha apoiada no ombro.
Meu pai explicava que era usada para ajustar engrenagens dos guindastes, mas eu guardava secretas suspeitas que poderia servir para algo mais sinistro do que apertar parafusos.
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Em um sábado ensolarado, quando eu fazia 10 anos, meu pai me levou para conhecer as novas máquinas que tinham chegado da Alemanha para substituir os velhos guindastes. Foi um deslumbramento – boquiaberto, eu virava a cabeça de um lado para o outro, hipnotizado pelo espetáculo dos guindastes, perfilados até perder de vista. As longas lanças inclinavam-se sobre o Guaíba, parecendo uma fila de joãos-grandes de aço, esperando monstruosos peixes emergirem das profundezas do rio.
Caminhamos ao longo dos armazéns, me equilibrando na linha de trilhos, enquanto o pai explicava como os guindastes descarregavam os navios que vinham do porto de Rio Grande, subindo a Lagoa dos Patos. Quase no final do cais, estavam os guindastes desativados. O vento sul assoviava em suas estruturas cansadas e sem vida.
As longas lanças estavam marcadas pela ferrugem, as cabinas de madeira com vidros sujos e portas escancaradas. Notei que as placas de identificação estavam limpas e polidas. Me esgueirando sob as vigas de ferro, achei as datas e locais de fabricação de cada guindaste. Haviam modelos de 1920 e 1925 e outros mais antigos, de 1911, todos fabricados no mesmo estaleiro, na cidade de Bremerhaven, na Alemanha. Procurei meu pai para contar-lhe minhas descobertas, mas ele estava mais adiante, junto a um guindaste isolado, na ponta do cais.
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Chegando perto, encontrei o que parecia ser o mais antigo e maltratado dos guindastes. A madeira da cabina estava chamuscada, vidros quebrados e peças faltando aqui e ali. Procurei a placa do fabricante, mas ela não estava lá. Meu pai parecia ausente pensativo. Olhava para a cabine no alto do guindaste e depois para o rio.
Quando me notou, seu rosto se desanuviou. Contei-lhe das placas dos guindastes, ele achou graça e saímos de mãos dadas para uma salada de frutas com sorvete de creme no Mercado Público.
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Os anos se passaram e eu estava ajudando minha mãe a retirar algumas caixas de madeira do fundo da despensa. Estavam repletas de jornais e revistas colecionados por meu pai, que havia falecido há pouco. Me demorei nas manchetes sobre a guerra – o afundamento do Bismark, o ataque a Pearl Harbour, a invasão da Normandia.
No meio da papelada, um envelope cheio de recortes amarelecidos sobre amigos de meu pai. Uma foto me chamou a atenção; mostrava um grupo de estivadores, policiais e bombeiros ao pé de um guindaste. A notícia falava de um incendio no cais do porto no ano de 1940. O jornal estava rasgado e faltavam pedaços, mas percebia-se que o redator havia se esmerado no relato do sinistro:
“Tragédia no cais”
“Nosso cais do porto foi palco de um facto trágico que chocou os habitantes da metrópole (…) um formidável incêndio irrompeu nos motores eléctricos de um guindaste, sem que nada pudesse ser feito para debelar (…). As chamas se alastraram com rapidez inaudita, porém o operador (…) nada percebia, atarefado em manejar uma grande carga de sacos de trigo.
No cais, estivadores e populares tentavam alertar o infeliz, mas os brados de alerta não chegavam até a cabine de comando, muito metros acima do chão. Os bombeiros tardavam (…) e quando um heróico estivador (…) subia pela escada para resgatar o colega, as chamas o fizeram retroceder.
Os circunstantes (…) apavorados viram quando o operador emergiu da cabine de madeira já envolvida pelas chamas. O homem (…) estava encurralado (…) e parecia condenado (…) morte pelo fogo.
Olhou para baixo, fez um gesto para a multidão e mergulhou fundo no rio.
O resgate (…) àguas do Guaiba foi acompanhado por uma multidão de (…) lamuriosos espectadores (…).
Um trágico gesto que será por deveras pranteado por familiares e colegas da infeliz vítima, identificada apenas como Malaquias de Tal.”
Minha mãe e eu nos entreolhamos. Meu pai me havia poupado daquela última façanha do Malaquias.

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