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Manda lembranças, Manosso !

Por Roberto Alves d”Azevedo No início dos anos 70, em plena ditadura militar, o esporte era a melhor editoria dos jornais para se trabalhar. …

Por Roberto Alves d”Azevedo

No início dos anos 70, em plena ditadura militar, o esporte era a melhor editoria dos jornais para se trabalhar. Ali se tinha uma boa liberdade de imprensa, a censura não se dava ao trabalho de prestar tanta atenção especificamente e, com o Brasil tricampeão do mundo, nascia o Campeonato Nacional. Alienante ou não – aí já é outro assunto! -, verdade é que o futebol alavancava a venda de jornais e isso nos garantia generosos espaços editoriais. E muitas viagens por todo o País na cobertura de Inter e Grêmio.

O esporte foi, naquela época, uma escola de jornalismo exemplar. Basta olharmos hoje quem são os grandes comunicadores ao nosso redor e veremos que, entre os que têm mais de 50 anos, praticamente todos foram cronistas esportivos. Alguns, inclusive, que não conseguiam entender bem o assunto, não gostavam mesmo de futebol ou até tinham um certo constrangimento de estarem ligados àquela “ferramenta” usada pelo Governo para diluir os problemas políticos, mas estavam ali porque ali se podia praticar jornalismo.
A Zero Hora era um jornal secundário na cidade, tentando competir no mercado com a força da Folha da Manhã e a tradição do Correio do Povo e da Folha da Tarde, que formavam a poderosa Cia. Jornalística Caldas Jr.

O esporte era a última editoria, no fundo da redação, numa sala comprida e sem janelas. Foi lá, sob o comando do Gaguinho (José Antonio Ribeiro), contando com a sabedoria do velho Mário Caminha (matrícula nº 1 da Aceg – Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos) e com companheiros como o Evaldo Gonçalves e tantos outros que estão espalhados por aí (menos o Boró, que continua lá até hoje), que o José Manosso ensinou dezenas de esforçados repórteres a escrever.

O Manosso, que teve um infarto fatal hoje pela manhã em pleno trabalho, na Assessoria de Imprensa da Assembléia Legislativa, deixa-nos a lembrança de um sujeito que se adaptava a nós de uma maneira fantasticamente agradável. Quando se discutia sobre Grêmio e Inter, ele tentava colocar – naquela época! – o seu Juventude de igual para igual. Quando se discutia qual era a melhor pinga no Porta Larga, ele jurava que o seu vinho de Caxias era melhor. Não jogava nada, mas nunca nos deixou entrar em campo, nos campeonatos internos da RBS, com um jogador a menos. Ele gostava de jogar cartas, mas não falava alto, não gritava e pouco conseguia discutir. E ninguém brigava com ele. Não apenas porque ele sempre foi calmo, paciente, educado… mas porque ele sabia fazer com perfeição uma coisa que nós invejávamos do fundo da alma: ele sabia escrever bem!

Hoje, então, quando ainda atônitos nos despedimos de seu corpo e reavivamos suas lembranças, não há como não projetar a festa que o Caminha, o Gago e o Evaldo devem certamente estar preparando para recebê-lo na redação deles. Devia estar faltando um copydesk por lá… ou alguém para fechar a mesa de pôquer, quem sabe. De qualquer forma, resta aos que ficam um último pedido: Manda lembranças, Manosso!

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