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Maria Iara ou Iara Maria?

Por Antonio de Oliveira Maria Iara ou Iara Maria? Sempre que eu perguntava, pois nunca sabia o certo, de verdade, ela jogava a mão com …

Por Antonio de Oliveira

Maria Iara ou Iara Maria? Sempre que eu perguntava, pois nunca sabia o certo, de verdade, ela jogava a mão com a inseparável piteira para trás e soltava uma gostosa gargalhada. “Pô, gordo…!!!”, repetia sempre a reclamação (ela e Ruy tinham a mania de me chamar de gordo e até hoje não entendi a razão). Ninguém lembrou, mas Iara foi uma competente e atuante sindicalista (ao meu ver, mesmo sem qualquer convicção ou tendência para), como tesoureira do nosso Sindicato dos Jornalistas Profissionais, assim como Ruy Carlos Ostermann, que também acabou, um dia, sindicalista (igualmente, ao meu ver, mesmo sem qualquer convicção ou tendência para), como vice-presidente, lá pelos finais da década de 1970, início da década de 1980.

Naqueles tempos de ditadura militar, exercíamos as funções que eram necessárias e determinadas pelas nossas categorias profissionais para que o movimento continuasse, mesmo que isto nos viesse a prejudicar profissionalmente. Eram tarefas que tinham que ser cumpridas por alguém e da melhor maneira possível. O foco principal era sempre combater a ditadura e para isto fazíamos acordos, hoje inimagináveis. Mas houve casos de pessoas que entraram para o movimento sindical, gostaram, e permanecem nele até hoje.

Inesquecível para mim o dia em que, todos nervosos, assumimos a direção do Sindicato. Eu, que não nasci para gravatas, lá, metido num terno até com colete, azul claro (vejam só, azul claro!!!), o salão completamente lotado, com minha barba desprovida de barba e meus cabelos desgrenhados, ouço a gritante e entusiasmada saudação “Meu Bode Azul, tu estás lindo!!!”. Nunca perdoei o alfaiate e sua sugestão.

Com uma disciplina incomum entre jornalistas, Iara não faltava a qualquer reunião e nem chegava atrasada. Entrava cobrando, isto sim, e iluminando a pobreza intelectual dos que a circundavam (minha, principalmente) com citações que, em princípio, pareciam nada ter a ver com o que tratávamos, mas que depois, refletindo, eu entendia e sentia que tinha tudo a ver, sim. Eram anos de reuniões e assembleias muito longas, que depois ainda prosseguiam pelos bares. E viajamos algumas vezes a São Paulo, onde ela ouvia quieta, algumas vezes assustada até, a manifestação de sindicalistas. Depois perguntava “gordo, para onde estamos indo?”. É que a fala dura dos trabalhadores entrava em choque com seu pensamento e análises profundas e refinadíssimas, e a levava, decerto, a prever que teríamos confrontos sérios logo logo, ali na frente.

A burrice era uma coisa que ela não aturava nas pessoas, pelo que sei. Tolerava quem não tivesse condições, tudo bem, mas com condições, ficava indignada. “Pô gordo, por que o Lula não estudou?”, disse-me uma vez em que nos encontramos para um cafezinho. Eu discordei e dei um discurso dizendo que Lula foi sempre um aluno aplicadíssimo e um estudante de aproveitamento excepcional, pois tornou-se a pessoa que mais conhece o País e, principalmente, a alma do povo brasileiro, não só dos pobres, dos totalmente desprovidos de tudo, mas também dos ricos, que sempre enfrentou sem medo, como negociador sindical. E olha que ele evitou inúmeras radicalizações que pareciam prontas para acontecer, com consequências inimagináveis.

Sempre incentivando a reunião de janta ou almoço dos geminianos, não se intimidava em defender o melhor de todos os signos, embora fizesse “argh!!!” para alguns nascidos nele. Num destes encontros, um jantar, eu a vi numa saia justa. A única, aliás. No meio da noite, depois de termos bebido todas, dois rapazes conhecidos, não lembro se eram também geminianos, que nos acompanhavam e eram namorados, levantaram uma proposta para que ela se tornasse mãe do filho que eles queiram ter para completar seu relacionamento de marido e “mulher” e formar uma família. Complicado, não? Foi aí que eu vi Iara Maria (ou Maria Iara?) num beco sem saída, na boca da caçapa, sem saber o que fazer ou responder. Seus argumentos, de repente, tornaram-se frágeis e não convenciam, quando a resposta deveria ser simples. Um sim ou um não, por uma questão de princípios, sei lá. Mas, não, ela gostava de argumentar. Sempre. E argumentação num caso destes é muito complicada.

Na última vez em que estivemos juntos eu saí preocupado com ela. Mas isto faz tempo. Outro dia (há menos de um mês) uma ligação dela caiu, por acaso (segundo ela) na minha mesa, conversamos por longo tempo e marcamos um café para os próximos dias, quando ela viesse ao centro. Ela me disse que estava procurando por alguém, cujo nome não citou, na Assembleia. Agora, eu já acho que ela me escondeu a verdade. Foi o nosso espírito de geminianos que nos convocou para uma despedida. Que bom!

A Dedé, sua melhor amiga das últimas quatro décadas, também esteve com ela horas antes de ela se despedir, e embora a maneira como se foi seja bastante complicada, não convencional, com certeza já estava na hora que ela havia programado para si. Porque a determinada Iara Maria (ou Maria Iara?), absolutamente, não iria deixar ninguém se meter numa decisão destas tão importante e final. Ficamos aqui, sem jeito, chocados. Até um dia…

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