Por Guilherme Arruda Há algumas máximas no meio automobilístico que vão perpetuar-se no com a ajuda dos aficionados pela velocidade. Duas são marcantes na minha carreira como repórter iniciante na década de 80.
As novas gerações pouco ouviram falar de um piloto chamado Rafaele Rosito, pessoa extraordinária, dentro e fora de um carro de corrida. Quis o destino, porém, que a sua dinastia nas pistas não fosse seguida por um filho homem. Rosito teve quatro filhas. A que mais dividiu com ele a paixão por corridas foi (e ainda é) Maria Cristina, destaque em várias categorias de âmbito nacional.
O que poucos sabem foram as dificuldades pelas quais Maria Cristina passou no início da carreira. Não pelo aprendizado ou adaptação às pistas. Longe disso. Desde os 14 anos, quando deu as primeiras voltas de kart — categoria obrigatória para qualquer novato — ela mostrou-se segura, ágil e inteligente. A resistência vinha nos boxes, pela voz de dona Gilda, sua mãe.
Nas raríssimas vezes em que pisou nos autódromos dona Gilda nunca disfarçou o desconforto de ver a filha de macacão, luvas, sapatilhas e escondida dentro de um capacete. O medo que acontecesse qualquer coisa com a filha, única entre um bando de barbados, elevava a pulsação a cada volta. Movia o corpo para acompanhar um pedaço de si percorrer toda trajetória do circuito; mãos suadas e olhos que mal piscavam.
Certa vez em Tarumã, momento antes da largada de uma corrida, o repórter Celso Ferlauto posicionou-se na pista, ao lado do carro de Maria Cristina, para colher algumas impressões e teve a idéia de colocar dona Gilda para falar com a filha. A conversa a três ia bem até que, ao sinal do diretor da competição, o repórter encaminhou o encerramento da entrevista, oferecendo a palavra à mãe da piloto. Aquela altura sem outra opção, dona Gilda pegou a deixa para desejar boa corrida e, no derradeiro segundo, permitiu que o coração falasse por ela: “Corra, minha filha, mas corra devagar, por favor”, pediu convicta, como que querendo inverter a lógica de uma disputa.
Coisas que só uma mãe faz por um filho — ou filha.
A outra máxima relacionada à velocidade tem como centro as diferenças de atitudes tomadas por pilotos em diferentes situações numa corrida; como, por exemplo, fazer uma ultrapassagem, ou esperar frações de segundos para frear bem mais “dentro” da curva e com isso ganhar alguns preciosos décimos de segundos, que na soma geral podem ser decisivos para determinar a colocação no grid de largada ou chegada.
Favoritos que ficavam pelo caminho ou então iam até o fim, mas rastejavam-se nas posições intermediárias, respondiam de maneira elegante às perguntas dos repórteres, justificando o mau desempenho dizendo coisas que, às vezes, nem eles acreditavam. Tampouco eu. Nessa hora entrava em ação a turma dos maldosos para, digamos assim, jogar luz sobre a verdadeira razão. A frase era esta: “Ele (piloto) não foi bem por causa de uma peça atrás do volante”.
Como qualquer foca, sofri para entender do que se tratava a tal peça atrás do volante. Com sorte e curiosidade descobri que a tal peça era a maneira jocosa para indicar um determinado grupo de pilotos, cuja deficiência era ser menos arrojado. Seriam menos arrojados?
Estas situações pertencem a um mesmo universo, o das competições, feitas em arenas delimitadas por áreas de segurança, equipes médicas de socorro, além de uma fiscalização espartana em cima de regras de segurança impostas aos carros e aos pilotos. Sem exceção. Há riscos de acidentes? Obviamente, e isto é inexorável em qualquer disputa, sobre quatro ou duas rodas.
Ao ver fotos e cenas na tv mostrando acidentes nas ruas e rodovias vitimando jovens — e pessoas inocentes que, por capricho do destino, estavam no lugar errado, na hora errada — fico pensando: se a intenção é exibir qualidades ao volante porque não canalizar a endorfina (substância que regula a emoção e gera prazer, reduzindo o estresse e a ansiedade) para uma máquina adequada — equipada com arco de proteção em forma de gaiola, feita de ferro e aço — e num local próprio para isso: um autódromo?
Lendo assim parece simples.
O ritmo de vida, porém, é intenso. A pressa de viver é tanta que a sensação é a de que nossos jovens motorizados estão pré-configurados para converterem minutos em segundos; segundos em centésimos de segundo e centésimos de segundos em milésimos de segundo; pouco importando data, local ou hora. E a soma disso com álcool, lamentavelmente, tem sido o caminho mais curto para transformá-los em verdadeiros “homens-bomba” das madrugadas.
O homem é um ser em inconstante cujos limites são testados a todo instante, por isso, o desafio é fazer soar o alarme na mente de cada jovem naqueles milésimos de segundo que separam entre afundar o pé no acelerador de um carro qualquer, numa rua ou rodovia qualquer, e entregar a chave para uma pessoa que não bebeu.
É uma atitude tão digna quanto à de dona Gilda ou de um piloto anônimo que optou por não arriscar o seu limite.

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