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Meia noite na antiga Paris

Por Carolina Zogbi Este texto é de um filme não muito novo. Relutei, relutei, até que, finalmente me rendi à vontade de ver o …

Por Carolina Zogbi

Este texto é de um filme não muito novo. Relutei, relutei, até que, finalmente me rendi à vontade de ver o novo trabalho de Woody Allen, “Meia noite em Paris” (Midnight in Paris, 2011). Para ser bem sincera, era a Cidade Luz que me interessava e não o roteiro do neurótico nova iorquino, que normalmente mais parece uma confusão de pensamentos que um filme.

De novo o roteirista sai de Manhattan para mostrar ao mundo que outros lugares existem e também conseguem ser legais. Assim como ele fez em Vicky, Cristina, Barcelona (2008), outra história ganha um novo cenário. A trilha sonora do filme (que “decora”a abertura) é por conta do clarinetista Sidney Bechet. Simplesmente fantástica.

Desta vez o longa não tem a presença irritante do narrador, o que torna o filme mais interessante, mas mantém a mesma problemática: a constante insatisfação crônica. Com muito mais glamour ela é vivida em Paris, viaja no tempo, passa pelos anos 20 e chega à belle époque.

A trama não é muito inovadora: como sempre, Allen constrói figuras atormentadas, que, por algum motivo esbarram em neuras, ligadas com o próprio dom de construir imensas barreiras. Desta vez é um escritor, vivido por Owen Wilson, casado com uma mimada filha (Rachel McAdams) de um casal de americanos imbecis que não enxergam nada além do próprio umbigo e país (colocando em questão a “supremacia americana”).

Entre traições, humilhações e viagens pelo tempo, o artista dividido entre ter fama e fazer o que realmente acredita começa a viver um dilema em plena Paris. Algo clichê, quando se trata de quem tem o dom de criar novas realidades, como os escritores e suas eternas buscas por inspirações e respostas para questionamentos internos (que também podem descrever o próprio cineasta). Neste momento a viagem e o realismo fantástico começam. Tudo isso com a participação de personagens nada menos importantes que Jean Cocteau, Hemingway, T. S. Eliot, Pablo Picasso, Salvador Dali, Luis Buñuel, Scott e Zelda Fitzgerald, entre outros artistas que fizeram parte da história da literatura, música, poesia, pintura… Pequenos papéis vividos por atores como Marion Cotillard, Kathy Bates, Carla Bruni e Adrien Brody.

Além da maravilhosa fotografia, a linda cidade de Paris e as situações engraçadas vividas pelo escritor com seus ídolos, a história nos  faz pensar, mais uma vez, sobre as manias que o ser humano tem de nunca estar satisfeito com nada. De querer ter nascido em outra época, de poder ter crescido em outro país, de poder ter conhecido outras pessoas, enfim, questões que quase sempre fogem de nossa alçada, e que se fossem concretizadas se tornariam parte do presente e não seriam mais um desejo do futuro.

De novo Woddy Allen surpreende, com um roteiro diferente dos outros, fazendo graça inteligente do que é chato, e não o contrário. Uma representação de que é impossível sermos felizes vivendo em um sonho, e apesar de a realidade ser menos mágica, pelo menos ela existe. Afinal de contas o passado é um lugar seguro, mas nunca vai ser o presente, que é a única chance de viver o futuro que resta.

Filme para ver e rever várias vezes. Pena que eu tenha demorado tanto para entrar neste mundo surreal de sonhar outra realidade com velhos conhecidos.

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