Por J. A. Moraes de Oliveira As vidraças embaçadas da manhã anunciam que os frios de inverno estão chegando. As folhas amarelecidas dos plátanos cobrem os caminhos na Redenção, a cidade se movimenta com vagar, se preparando para as preguiças do inverno.
Minha mãe olha para os lados do Guaíba, diz que os ventos de agosto não tardam e, com seu ar resignado, retira casacões e mantas do fundo dos roupeiros. E por vários dias, a família inteira cheira a naftalina. Ao longo da Vasco da Gama, as janelas dos sobrados são fechadas mais cedo, as pessoas desaparecem dentro das casas, reunidas ao redor dos fogões a lenha.
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Subo as calçadas molhadas da Ramiro Barcelos. Dobro a esquina da Castro Alves e toco a campainha do casarão dos Dreher. Proponho ao “alemão” Arno, trocar alguns livros de sua coleção Terramarear por um saco com minhas melhores bolas de gude. Meia hora depois, desço a Ramiro correndo, com um maço de livros apertado debaixo do braço. Ficara sem as bolitas,mas as leituras de inverno estavam garantidas: os dois volumes de “Winnetou” e “As Novas Aventuras de Sherlock Holmes”. No meio da tarde, a pausa para sorver, a pequenos goles, uma caneca de chocolate quente, preparada com barras derretidas do macio chocolate Sönksen.
Escurece, o frio chega, as venezianas das casas são fechadas e as lâmpadas dos postes, acesas. Uma linha de luzes amarelas, pisca no sereno e brilha nos paralelepípedos molhados. Começam a ser ligadas lá em cima, na Avenida Independência, entram na Ramiro e na Vasco, descem Felipe Camarão abaixo até o Bom Fim.
Quando o pai chega, vai para junto ao fogão esquentar as mãos. Conta que seus colegas nos armazéns do porto, passaram o dia com os sobretudos vestidos, ouvindo o minuano assoviando nas frestas dos portões de ferro. Na hora do jantar, o speaker da Radio El Mundo, anuncia que uma frente polar chegou a Buenos Aires. Meu pai serve-se de um copo de clarete e sentencia: “Agosto vai ser gelado”.
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Muitos invernos depois, a caminho do jornal, aquele sopro gelado e úmido me reencontra nos finais de tarde na Praça da Alfândega. Sobe do Guaiba, entra pela Sete de Setembro, despindo as árvores pelo caminho. As pessoas caminham encolhidas, procurando abrigo no calor do Café Central ou nos vãos do edifício do Clube do Comércio.
Entro no jornal, onde os redatores fumam os últimos cigarros do dia, um olho no relógio de parede e outro no teletipo silencioso. Todos rezando para que nada mais acontecesse naquele resto de noite, que os obrigassem a refazer as manchetes do jornal, já pronto para rodar.
À uma hora da manhã, soa a sirene da rotativa e a redação se esvazia em minutos. Os veteranos são os primeiros a sair, em direção ao abrigo de bondes, enquanto os solteiros, tomam o rumo do Mercado, em busca da canja quente e de uma conversa madrugada adentro.
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Desço as escadas de ferro até chegar na rotativa, que ruge, sacudindo as paredes do prédio. Por algum tempo fico por ali, sem nada a fazer, olhando a máquina cuspir jornais aos milhares, que são amarrados em grandes maços e jogados dentro dos caminhões, que aguardam ao longo da Sete de Setembro.
Cansado, atravesso a praça deserta até o Matheus. Lá, alguns colegas matam a fome com um bauru com laranjada e outros se aquecem com uma dose dupla de conhaque Aristocrata.
Depois caminhamos até a banca de jornais da praça. Em alguns minutos, um caminhão entra na contra-mão, reduz a marcha e um entregador joga os maços de jornal na calçada molhada.
O ritual se repete todas as noites, os jovens jornalistas, tremendo de frio, esperam pelo momento de abrir o jornal com cheiro de tinta, para ler as notícias que chegariam nas casas das pessoas na hora do café da manhã.
Confiro as manchetes e leio pela décima vez o texto escrito horas antes na Underwood preta. Subo sem pressa a Rua da Ladeira deserta e na esquina da Praça da Matriz, o vento de agosto me aguarda, gelado como os ventos de minha infância.
Ainda faltam muitos dias para a primavera e para as tardes claras e cheias de luz.

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