Por Gilson Piber Se Dom Ivo Lorscheiter não tivesse real valor, a cidade, o Estado e o país jamais prestariam inúmeras homenagens durante o velório e o enterro do bispo emérito de Santa Maria. Manifestações do exterior também chegaram, ressaltando o trabalho e a trajetória do “Gigante da Esperança”. Se fica fácil e até oportunista para alguns setores da sociedade homenagearem Dom Ivo após a morte, igualmente, é covardia acusar o bispo de ter incentivado a criação de bandos armados.
Cito o Projeto Esperança/Cooesperança, da Diocese de Santa Maria, e que tem a Irmã Lourdes Dill na coordenação como uma das várias iniciativas que tiveram Dom Ivo como fiel apoiador e incentivador. Ele sempre esteve a postos diante de todas as dificuldades enfrentadas pela proposta de valorização da economia popular solidária. Nunca fugiu da briga. Em 2007, o projeto completa 20 anos com a geração de trabalho e renda. Porém, a iniciativa valoriza o ser humano como cidadão na essência da palavra e recupera a auto-estima de muitos de seus integrantes.
Dom Ivo deixa trabalho consistente na CNBB e na Diocese de Santa Maria. Enquanto alguns se escondiam ou apoiavam o regime ditatorial, o bispo mostrava a cara em defesa dos direitos humanos. Muitos marcharam unidos na tortura a seres indefesos e no apoio ao regime de exceção. Hoje, posam de democratas, vestem e respiram liberdade, depois de um período obscuro e doloroso para muitos brasileiros.
Se Dom Ivo foi conservador para alguns, as ações progressistas do bispo estão aí e podem ser vistas naturalmente. Sem fazer força. Para a Irmã Lourdes Dill, “Dom Ivo foi sempre um incentivador de grandes projetos sociais. Ele trabalhava a caridade de modo não assistencialista, mas transformador”. Efetivamente, o nosso Brasil precisa de mais transformação e menos assistencialismo.
A Igreja Católica não é perfeita, assim como várias outras e o próprio mundo. No entanto, respeitar a crença das pessoas em qualquer religião é um ato de sabedoria e grandeza humana. Cada um escolhe o caminho a seguir e tal opção deve ser respeitada. Trata-se de um princípio básico de liberdade de escolha. Algo que “novos democratas” desconheciam anos atrás.
Talvez, “bandidos” sejam aqueles que tentam combater os movimentos sociais organizados e são contra a inclusão dos menos favorecidos. Dom Ivo combatia a exclusão social. Aliás, concentrar poder e renda é algo que interessa a poucos.
Seguir na “boa luta” é lembrar sempre de Dom Ivo, faça chuva ou sol. O Doutor Honoris Causa do Centro Universitário Franciscano (Unifra), título recebido em 2005, citou São Boaventura na época e pediu “bênçãos e novas graças”. Que Santa Maria, ao menos, respeite Dom Ivo como cidadão transformador.

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