Por Maria Elly Herz Genro e Hélio Ademar Schuch
Técnicas e regras aumentam a produtividade do trabalho, mas ajustam o pensamento, descartando, ou mesmo proibindo, a possibilidade de criar – o que nos faz humanos, de fato, e aí sim, mais produtivos. Para isso é preciso filosofia, o estimulante para o ato de pensar. Filosofia deveria ser ensinada em qualquer curso profissionalizante e em todos os cursos superiores. No jornalismo, intensamente, porque esta atividade precisa abandonar o foco na aparência do que acontece, já vulgarizado pelos diferentes meios de comunicação, como as redes sociais, e expor o que ainda não se sabe, os pressupostos e as consequências do ser e estar no mundo, incidindo no saber das causas dos efeitos.
Neste sentido, a filosofia tem o atributo de aumentar e melhorar, em muito, a capacidade de abstração, acentuando a sensibilidade para os fatos e sua compreensão na totalidade. Abstrair é mais do que colocar realidades dentro da cabeça na forma de ideias. É a partida para a observação que supera o meramente visível (“As coisas têm o valor do aspecto, e o aspecto depende da retina.” Machado de Assis, revista A Semana, 22/11/1896), inspiração, referências e imaginação, forças mentais decisivas para a criatividade, o que significa além da originalidade, percepção profunda, segurança e autonomia para não reproduzir a composição do senso comum, padrões, estereótipos e preconceitos, componentes de uma mentalidade atual que parecem ser hegemônicos e determinantes.
Pensamento livre é condição de sujeito, capaz de perceber as nuances de um mundo complexo e não linear, como é apreendido comumente pelo pensar acomodado e direcionado a objetivos dados, imediatos, e simples. Pensamento cativo está muito próximo da condição de objeto, em permanente processo de subordinação a ideias, opiniões, determinações, alheias a nossa capacidade de autonomia intelectual.
O filme “Hannah Arendt”, em exibição, mostra um pensamento livre e um pensamento cativo. A filósofa e professora universitária foi contratada como jornalista da revista The New Yorker para cobrir o julgamento do nazista Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961. A opinião pública estava consolidada: o réu era um dos mentores do holocausto. Porém, Hannah Arendt, ela judia, pensou bem diferente: sim, ele era um assassino, mas ao mesmo tempo um mero burocrata, obediente, zeloso ao extremo no cumprimento de ordens superiores, um homem cuja capacidade de pensar pode ser definida assim: “pois não deixou nenhuma dúvida de que teria matado o próprio pai se houvesse recebido ordem nesse sentido”, como escreve em seu livro-reportagem “Eichmann em Jerusalém; um relato sobre a banalidade do mal”, Companhia das Letras.
A mente cativa de Adolf Eichmann, confessada em sua autodefesa no tribunal, produziu na mente livre de Hannah Arendt um dos mais famosos insights do século 20: o mal podia, sim, ser algo banal. Como aconteceu nos campos de concentração alemães.
Filosofia eleva e livra o pensamento das amarras impostas por coerções sociais e econômicas que tendem a subordinar, moldar e conformar o indivíduo de acordo com determinada visão de mundo única. Por natureza ela é subversiva. Mas sua subversão é o que move nossas vidas. Porque o “novo” sempre nasce de uma ideia – processo de ruptura com as obviedades do mundo.

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