Por Antônio Goulart
Jornalista, escritor, dramaturgo, humorista, tradutor, roteirista, cartunista e artista plástico, Millôr Fernandes, que morreu na semana passada, não cabia numa única categoria. Era múltiplo. Foi um dos mais lúcidos e talentosos pensadores do nosso tempo.
Sua vitrine foi sempre a imprensa. Por isso, sua popularidade não foi tão grande, caso tivesse escolhido a televisão, como Chico Anísio, por exemplo.
Consequência natural, Millôr deixou – no seu jeito irônico e mordaz, algumas vezes, mas sempre verdadeiro – uma coleção de pensamentos relacionados à imprensa. O mais conhecidos deles:
-Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos & molhados.
Temos ainda:
– O que prejudica a nossa liberdade de imprensa é a mania de certos cidadãos se defenderem quando são atacados.
– Por que a imprensa continua tão respeitada? É a única indústria que não dá a menor garantia pelos produtos que vende – ficam obsoletos em menos de 24 horas.
– Em nome de cobertura, certos jornalistas aceitariam até entrar em Tróia no cavalo dos gregos.
– Em qualquer roda é fácil reconhecer um jornalista: é o que está falando mal do jornalismo.
– E disse o porta-voz: “Podem crer. Eu vi com estes olhos que a Imprensa há de comer!”
– Li, ontem, um editorial realmente magnífico sobre a ditadura. Não dizia absolutamente nada. Mas era contra.
– A fotografia é a mentira absolutamente insofismável.
– Violência. Terremoto. Fome e promiscuidade dão cada foto!
– Testemunha ocular é uma pessoa que mente com seus próprios olhos.
– Não tenha dúvida: a função fundamental da crítica cinematográfica sempre foi nos fazer de bobos.
– Quem confunde liberdade de pensamento com liberdade é porque nunca pensou em nada.
– O pior da censura é que ela não só cala as poucas vozes dissidentes mas desperta nas outras um extraordinário desejo de subserviência.
– O direito de resposta é fundamental. Senão a gente fica até pensando que o outro lado pode ter razão.

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