Por Ruy Carlos Ostermann
A homenagem era indispensável, fazia parte do meu gabinete todos os dias. Residia nas prateleiras, tomava forma em tamanhos diferentes. Dependia do livro, do registro, do bilhete esquecido na mesa ou da lembrança sempre revisitada a qualquer silêncio ou retiro.
Tenho vários heróis nas estantes, entre livros e publicações que já se acumularam com o tempo e a preocupação de tê-los sempre próximos da mão. Alguns estão no bolso ou na carteira, como anotação, fazem parte do cotidiano de um jornalista distraído, mas não tanto. Foram escolhidos por critérios muito pessoais, desses que não se devem transferir para outra pessoa ou instituição.
Millôr Fernandes, pela formação do leitor das revistas nacionais, antes de seus livros, era uma admiração um pouco assustada. Ele parecia ser um homem radical num estilo de frase às vezes sinuosa, outras vezes de uma simplicidade e contundência que deixava o adolescente maravilhado e perplexo. Um escritor que não dava para ler sem estremecimento ou uma forma intelectualmente vaga de receio e retraimento. Mas tudo se resolvia pela cumplicidade sem alardes, por pura consideração e fascínio.
Quando imaginei dar uma certa autoridade de leitor aos meus livros, me lembrei dele. Mandei fazer um carimbo que só depois percebi que era Made in Áustria e tinha um nome indefectível: Colop Printer 60. Todos os meus livros são em parceria com Millôr. Na primeira página de cada um deles, lá estão os ridículos funcionários da Censura Federal acotovelados em torno de uma pequena mesa, divertindo-se com mais uma edição do Pasquim. Riem, estão de bocas abertas, quase escorregam.
É a saudade cúmplice e feliz que sempre terei dele.

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