Por Roberto Andrade Clésio é o nome de um garçom que conheço há um bom tempo. Ele trabalhou em alguns restaurantes que freqüento e, atualmente, atende numa casa especializada em comida nordestina no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste do Rio de Janeiro, onde moro. Encontrei Clésio ontem à tarde no Terreirão, a favela aqui do Bairro, em um boteco ao lado da praia que serve uma cerveja muito gelada, perfeita para o sol de 34 graus que secou minha garganta. Fui lá com a desculpa de buscar carvão para um honesto churrasco domingueiro. O Terreirão, como tantas outras favelas cariocas, formou-se no início dos anos 60 com invasões de áreas públicas por migrantes nordestinos que chegavam ao Rio em busca de uma vida melhor. Clésio se encaixa exatamente neste perfil.
Tomando aquela deliciosa cerveja com meu amigo garçom ouvi uma história impressionante, por ele contada – já embalado por vários aperitivos e uma nostalgia de dar dó. Clésio era um dos 11 filhos de Seu Serafim e Dona Juvanira. A família vivia na roça, em um pequeno vilarejo chamado Cacimbas, próximo de Sobral, no sertão cearense, produzindo um pouco de tudo em uma boa terra cortada ao meio por um rio.
Clésio lembra de trabalhar muito na infância, junto com os pais e os irmãos. No verão, plantavam na parte baixa da terra aproveitando a valiosa água do rio para irrigar a lavoura. No inverno, plantavam na parte alta e se dedicavam a outras atividades, como a cria e o abate de pequenos animais e a preparação da terra e do cultivo para a próxima jornada de sol forte. O garçom Clésio lembra, suspirando, que sua família era invejada por ter a fartura da terra boa, que nunca lhes deixou faltar comida. E um rio sempre vivo que trazia água para o manejo da roça e o consumo da casa.
Ao completar 14 anos, Clésio decidiu que queria ir embora de Cacimbas. Estava cansado da roça e sabia de ouvir falar que havia um mundo maravilhoso esperando por ele lá no Sul do Brasil. Foi embora, junto com outro irmão, cujo nome me faltou agora, contra a vontade dos pais. Chegaram o Rio em 1977, após quatro meses de viagem. Em poucos dias uma trágica passagem resultou na morte do irmão de Clésio. O rapaz envolveu-se com uma moça que namorava um dos chefes do tráfico de drogas na Favela do Jacarezinho, onde conseguiram um quarto para morar. Foi executado com oito tiros, mas antes teve o órgão genital cortado, como castigo. Clésio conta a tragédia do irmão com mágoa e uma ponta de culpa. Lembra com tristeza os alertas que fez para o rapaz não se meter com tóxico nem com mulher. Deu no que deu, concluiu lacônico.
Clésio fez todo tipo de trabalho para sobreviver. Faxina, biscate, ambulante, porteiro e, finalmente, garçom, em um pé sujo da Zona Sul. Casou-se com uma moça honesta e trabalhadora, teve uma filha que está com quatro anos e, cansado da vida difícil e sofrida, decidiu voltar para o Ceará. O pai, já falecido, havia deixado a terra para a viúva, velha e doente, e outros três irmãos de Clésio. Preparou a viagem, juntou um pouco de dinheiro e pegou um ônibus na Rodoviária Novo Rio, rumo a Cacimbas. Foram terríveis os dias de viagem, com a filha passando muito mal, o que os obrigou a parar em Fortaleza para levá-la a um hospital. No dia seguinte seguiram para seu destino.
Para surpresa de Clésio, ao chegar, a mãe havia falecido. Uma das irmãs foi embora para Fortaleza deixando os cinco filhos para trás. E os irmãos que ficaram – um deles alcoólatra – haviam, segundo o garçom, feito uma desgraça atrás da outra. Por não terem capacidade de trabalhar na roça e para custear a doença da mãe, decidiram tomar dinheiro emprestado e entregaram a terra de garantia ao banco. O dinheiro acabou e, ao chegar, Clésio ficou sabendo que todos já deveriam ter saído de lá. A terra não era mais deles. Ele, a esposa e a filha decidiram, então, voltar para o Rio de Janeiro. Com eles vieram duas das cinco crianças deixadas pela irmã que desapareceu. Todos hoje vivem no Terreirão, do jeito que dá. Nunca mais receberam notícias do que restou da família.
Esta é a história de Clésio, um cearense, brasileiro, que mora no Rio de Janeiro e rala muito para ganhar a vida honestamente. Após ouvi-la, tomei meu último gole de cerveja, dei um tapinha solidário no ombro de Clésio e fui embora com o carvão. E fiz meu churrasco quase em silêncio.

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