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Morreu Aveline, guru de várias gerações

Por Carlos Bastos Eu me gabo de ter convivido com João Baptista Aveline por cerca de cinqüenta anos. É meio século de coleguismo, companheirismo, …

Por Carlos Bastos

Eu me gabo de ter convivido com João Baptista Aveline por cerca de cinqüenta anos. É meio século de coleguismo, companheirismo, amizade e parceria. Ele era um fora de série, com um carisma incrível e uma maneira de ser envolvente e cativante. Era muito insinuante. Cativava a todos. De Maurício e Jayme Sirotsky, donos e diretores da RBS, aos seus superiores como Lauro Schirmer, ou seus colegas como eu, Paulo Santana, Marco Aurélio Carvalho, Elenora Rizzo, Carlos Alberto Kolecza, Antonio Oliveira, Luiz Fonseca, o Chuvisco, Olyr Zavaschi, Núbia, Dedé, Graça, e os contínuos como o Galaor e o Teixeirinha. Ele foi o guru de várias gerações de jornalistas.

Aveline começou no jornalismo trabalhando na Tribuna Gaúcha. Depois teria uma passagem pela Rádio Itaí, e, em 1957, a convite de Mauricio Sobrinho, foi dirigir o departamento de notícias da Rádio Gaúcha. Lá que trabalhamos juntos pela primeira vez. E foi uma excepcional experiência. Maurício lhe dera a incumbência de enfrentar os noticiários da Rádio Guaíba, que estava começando a todo vapor com o Correspondente Renner em alta. Aveline resolveu inovar e colocou pessoal que trabalhava em jornal a participar da redação dos noticiários. Lá nós encontramos o João Souza, o João Ferreira, o Ivo Correia Pires, o Índio Vargas, o Paulo Totti, o Nilson Guimarães, o Floriano Corrêa, e depois se juntaria ao grupo o Dilamar Machado.

Com a saída do Mineiro, o Aveline me encarregou de apresentar o Tribuna Parlamentar, programa que continha uma síntese dos trabalhos no plenário da Assembléia, e que ia ao ar às 23h. Passávamos a tarde gravando os debates e à noite apresentávamos uma montagem. Eu tinha muita dificuldade para enfrentar o microfone e sempre redigia o meu texto. E o Aveline sempre me criticando: “Se escreves, basta que digas no microfone o que irias escrever. Um dia eu vou te tirar o texto no ar”. E ele cumpriu o que ameaçava. Numa noite que eu apresentava o programa ao vivo ele tirou o texto da minha mão. Eu falei mais algumas palavras e me deu um branco. A rádio ficou como se estivesse fora do ar, e o Aveline desesperado ao meu lado, mandando que eu continuasse a falar, e nada. Acabou colocando novamente à minha frente o texto, e eu retomei a sua leitura. A Gaúcha ficou por quase um minuto absolutamente fora do ar. E o Aveline desistiu de sua campanha para eu abandonar o texto escrito na apresentação do programa.

Nos quatro anos de existência do vespertino de Samuel Wainer, Aveline se realizou profissionalmente. Ele e o João Souza eram os encarregados da cobertura do movimento sindical. Ele ficou como o diabo gosta. Era um jornalista-ativista. Participava das assembléias dos municipários, dos gráficos, dos trabalhadores no vestuário, do pessoal da construção civil e dos eletricitários. Ele era um consultor e um conselheiro dos líderes sindicais. Articulava com gente como Quintana, dos gráficos, Campezzatto e Ayala, dos eletricitários, e tantos outros. Foi brilhante sua passagem por Última Hora, e também com a forte liderança que exercia na redação. No início dos anos 70 ingressou em Zero Hora, como secretário gráfico e depois ocupou a chefia de Reportagem, e lá trabalhou até se aposentar.

Não foi de graça que Aveline pediu para que a bandeira do Partidão envolvesse seu caixão. Ele teve toda uma vida de militância e coerência. Sempre foi um membro ativo do PCB. E não se abalou nem com a invasão dos tanques russos na Hungria, nem com o desmascaramento de Stalin por Kruschev, nem com a queda do Muro de Berlim. Mesmo depois de tudo isto, Aveline ficou firme com suas convicções comunistas. Ele era um admirador extremado de Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, tendo inclusive dado ao seu filho mais velho o nome de Luiz Carlos. Quando Prestes divergiu e deixou as fileiras do PCB, Aveline se manteve incólume ao lado do partidão. E no final de sua vida, acompanhou Roberto Freire na criação do PPS, para onde os comunistas migraram, mas acabou saindo no racha que dividiu o seu novo partido.

Aveline teve uma morte serena e se manteve sempre em atividade. Poucos dias antes de morrer, ele se deslocou a Rio Grande e Pelotas, trabalhando pelo Movimento em Defesa do Acervo da Ditadura. E na semana que antecedeu seu falecimento, participou de uma reunião da comissão de ética do Sindicato dos Jornalistas, do qual era vice-presidente. Morreu o camarada Aveline, um grande parceiro, um grande companheiro, um grande amigo, um irmão. Que as tuas cinzas frutifiquem, grande João Aveline.

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