Por Ruy Carlos Ostermann
Todo mundo quer mudar a Feira do Livro. É uma comprovação de fidelidade, de uma forma de amor, porque só querem mudar, não querem tirá-la do lugar nem aumentá-la acima dos jacarandás e dos ipês. E também não querem mudar a sua especial subjetividade, nem a aparência doméstica que ela ainda tem ou sua especial vocação para, de certa forma, mas sempre muito discreta, parecer uma quermesse. Tem pipoca, cachorro-quente. Outro dia, vi um vira-lata atravessando com pressa e susto a Rua da Praia, que só assim pôde recuperar sua velha identidade disfarçada pelas barracas.
O Sergio Faraco é dos mais antigos “mudancistas”, mas com a intenção de desfazer os avanços e reassumir o miolo da praça, para fazer outra vez os autógrafos ali. Só assim, pensa o ilustre escritor, seria possível reencontrar os amigos e ficar conversando fiado sem ser incomodado. O Enéas de Souza, apoiado na Flavinha, trouxe uma preocupação mais metafísica, mas nem por isso de outro gênero: ele gostaria de saber como, sem mudar nada, se poderia recuperar o antigo perfume da Feira – ele se referia ao clima, eu é que falo em perfume.
Os autores de livros infantis, embora não digam exatamente assim, gostariam que os autógrafos das crianças não ficassem tão lá no fundo. Alguns me sugerem que talvez pudesse ficar com o Guaíba às costas, logo na entrada.
Ainda não consegui reunir o Conselho dos Ex-Patronos. Por certo, também querem mudanças, mas, como irremediáveis defensores da Feira, gostariam que se nem percebesse.

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