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Muito além da manipulação

Por Renato Gianuca O 32° Congresso Estadual de Jornalismo terminou sábado, dia  03/06/2006, em Porto Alegre, com saldo altamente positivo. O encontro serviu para …

Por Renato Gianuca

O 32° Congresso Estadual de Jornalismo terminou sábado, dia  03/06/2006, em Porto Alegre, com saldo altamente positivo. O encontro serviu para revigorar o ânimo dos profissionais mais veteranos. E proporcionou aos jovens estudantes de Jornalismo – a grande maioria dos presentes –  formas, maneiras e  dicas diversas para concretizar, logo adiante, o seu ingresso nas redações de jornal, rádio, TV e sites de Internet.

O encontro aconteceu em clima de emoção, logo após a morte do jornalista, escritor e professor Daniel Herz, às vésperas da abertura do congresso. Herz, um exemplo de ética e profissionalismo, foi, de alguma forma, o paradigma do evento – dedicado aos temas “Informação, Ética e Liberdade”. Além das palestras dos colegas Oziris Marins e Franklin Martins, o congresso estadual apresentou três painéis, com intensa participação do público de mais 200 pessoas durante os seus dois dias de atividades.

Um painel foi, justamente, sobre o tema “A Ética no Jornalismo”, reunindo quatro integrantes da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul: Pedro Luiz Osório, José Antônio Vieira da Cunha, Antônio Hohfeldt, mais este repórter, que ficou com a coordenação dos trabalhos.

Primeiro a falar no painel, o jornalista Vieira da Cunha, diretor do site ColetivaNet, começou perguntando: “Pode-se exigir uma imprensa ética? Pode-se esperar uma imprensa ética? A imprensa pode dar um exemplo ético à nossa sociedade?” Ele mesmo respondeu:  “Jornalistas nem sempre são modelos de postura ética, porque, em geral, extrapolam o poder que têm e adotam posturas arrogantes”.

Vieira da Cunha foi além: os jornalistas “não medem atos – invadem a privacidade de tereceiros, homens públicos ou não, com escutas telefônicas, espionagens, falsidade ideollógica, lentes telescópicas, câmeras ocultas. São procedimentos e ferramentas invasivos, moral e eticamente inaceitáveis”.

Ele condena a imprensa que vê o mundo cor-de-rosa, mas também o seu oposto, o jornalismo ácido e crítico, de denúncia. Citando o professor Carlos Di Franco, representante da Universidade de Navarra,  Vieira da Cunha disse sobre o jornalismo de denúncia que sonegar informações é uma coisa. Mas orientá-las num só sentido tem um nome: manipulação, consciente ou não. Ele deixou claro que acredita no papel da imprensa na construção de uma realidade social mais justa, dentro do que chamou de “jornalismo cívico”, cobrindo não apenas os conflitos, mas apontando s soluções e ajudando as pessoas a desempenhar seu papel como cidadãos ativos da sociedade.

Seguiram-se os depoimentos de Antônio Hohfeldt e Pedro Osório. O atual vice-governador do Estado, conhecido jornalista e acadêmico, procurou provocar a platéia: “Como podemos exigir ética da imprensa  brasileira se a sociedade brasileira não tem ética?”, indagou ele. Foi contestado, a seguir,  pelo jornalista e professor de Jornalismo da Unisinos,  Pedro Osório, que apontou para a prisão do relativismo, onde se pode distinguir uma ética autoritária de uma ética humanista.

Na abertura deste painel, este repórter procurou colocar na mesa alguns pontos básicos sobre a ética profissional, baseando-se na obra “El Periodista Universal” (Editora Siglo 21, 1999), do jornalista inglês David Randall. Entre estes pontos, os profissionais da mídia devem estar sempre a serviço dos seus leitores, ouvintes, telespectadores, aspirando à profundidade e à veracidade de suas matérias, na contramão de quaisquer outros interesses.

Pairando sobre o debate, e à espera da aguardada palestra de Franklin Martins, o que assombrava a platéia era a lembrança da recente coluna de Diogo Mainardi na revista Veja. Ali, na edição de 19 de abril passado, o controvertido colunista acusava  Martins e outros profissionais da mídia de “frouxidão ética”, denunciando ligações de familiares dos jornalistas com a política e o poder – procurando desta forma embasar de alguma maneira as seus denúncias de promiscuidade entre a Imprensa e o poder público. Mainardi concluía assim sua catilinária: “Os brasileiros são moralmente frouxos. Os jornalistas são brasileiros”.

O que dizer sobre a coluna mainardiana? Para começo, pode-se apontar semelhanças entre a posição do impetuoso colunista da revista da Abril com a frase-provocadora de Hohfeldt. Mas, de fato, há que separar aqui um conceito menor de outro, mais abrangente.

Os brasileiros, ao contrário do que pode pensar Mainardi, são, sim, éticos. No dia-a-dia, no trabalho do mais humilde aos considerados mais elevados, nas fábricas, no campo, nas universidades e, também, nas redações a regra geral é a ética no seu significado mais amplo, de saber distinguir o que é certo do que é errado. E procurar agir conforme esta distinção básica. É certo, também, como se tem visto, que há brasileiros “moralmente frouxos”. Mas, insisto: são uma minoria. Entre eles, há desde dirigentes políticos a acadêmicos e jornalistas, é certo. Não se deve, porém, confundir a maioria ética no Brasil com a minoria eticamente reprovável.

Outro ponto destaca-se no debate: a figura “jornalistas” pairou naquele painel acima de distinções de classe. Por mais que se queira esquecer, devo repisar: o jornalista das redações de jornais, rádio e TV é um profissional assalariado. E em sua maioria, é profissional mal pago e enfrentando jornadas diárias extenuantes, como testemunhou Oziris Marins em sua palestra, ao relatar os motivos pelos quais deixou a RBS, após 15 anos,  para ir para a Band RS.

Então, para concluir: se há arrogância de parte dos jornalistas – o que é verdadeiro; se há microfones e câmeras ocultos para fisgar furos eventuais de reportagem; se existe de fato a manipulação da mídia, e ela existe  – então não podemos esquecer dos patrões, os barões da mídia. Eles é que empregam jornalistas. E os profissionais a eles devem não apenas os salários, mas também uma certa conformidade com a linha editorial ditada por esses barões. São eles, esses barões, “metidos até o pescoço nos negócios, não raro em negócios que envolvem o Estado e seus funcionários, estes grupos de comunicação que deixaram de ser, há muito tempo, um dos instrumentos legítimos de circulação de informações, do exercício da crítica e de estímulo à controvérsia”, como escreveu o diretor de redação da revista Carta Capital, MIno Carta, na edição de 4 de julho de 2001.

As palavras do mestre Mino, de cinco anos atrás, iluminam um pouco as linhas de sombra do painel sobre a ética na profissão. Sempre recordando: o congresso foi bastante positivo. Agora, resta a parte mais difícil: ir além das teorias e lições levantadas nos dois dias de painéis e debates e passar à prática diária, nas redações e bancos das faculdades.

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