O dia seguinte à eliminação em um grande campeonato é de pura ressaca. É aquele silêncio pesado no trabalho e o esvaziamento abrupto de uma euforia que só fazia crescer. Enquanto o público debate o campo, os patrocinadores sofrem com o impacto do silêncio. Marcas que até ontem inundavam o feed simplesmente desaparecem da noite para o dia. Quando muito, publicam um post burocrático, em tom pastel, dizendo que “o sonho continua na próxima Copa”. Sem a vitória, elas perdem o roteiro. Não têm mais nada a dizer. É exatamente nessa quebra de ritmo que o marketing esportivo separa o joio do trigo: quem construiu uma plataforma de marca consistente e quem apenas apostou no placar.
Durante o ciclo do torneio, bilhões são despejados em campanhas presas a uma única hipótese: a de que o time vai ganhar. Quando o resultado não vem, as diretorias recolhem a comunicação em pânico. A agilidade do real-time é asfixiada pela burocracia interna, mas o público tem um detector de mentiras afiadíssimo. Ninguém compra o consolo de uma marca que, até ontem, só ligava para o troféu. Quem só aparece na festa não ganha confiança. Se você acredita no esporte como plataforma de negócios, precisa fazer parte de toda a jornada, e não apenas do ápice dos holofotes. O futebol pulsa o ano inteiro: está na base, no feminino, na várzea e nos campeonatos locais. Quem só aparece a cada quatro anos para surfar o pico da Seleção nunca será dono do território. É a presença nos dias comuns que legitima a voz da marca nos dias de glória — ou de luto. Relacionamento é permanência.
Até porque o torcedor não desliga a mente com o apito final. Ele migra imediatamente para a segunda tela em busca de resenha, memes e um pouco de distração. É aí que as marcas maduras jogam outro jogo. Elas atravessam a derrota com naturalidade porque escolheram patrocinar o estilo de vida que orbita o esporte, não o discurso da vitória. No Brasil, o futebol é a desculpa perfeita para o churrasco, para a estética das ruas, para a linguagem das redes. Se o time perde, o churrasco acontece da mesma forma, quase como um abraço coletivo. A marca que patrocina o ritual, e não o resultado, permanece na mesa. Afinal, patrocinar um evento sazonal é apenas mídia. Fazer parte da cultura é brand equity.
Marcas que entendem essa diferença criam seus manuais de contingência com o mesmo tesão que criam os roteiros de vitória. Elas dão autonomia para as agências falarem a língua da internet na velocidade que o digital exige, sabendo que sofrer junto gera uma conexão emocional infinitamente mais profunda do que o sumiço. Olhar apenas para a visibilidade imediata é uma miopia severa, um tiro curto guiado pela ditadura do ROI do próximo trimestre. Estar no ecossistema o ano inteiro funciona como um “seguro de engajamento”: se a Seleção cai, o valor investido não vai a zero. A sua história é maior que um torneio de um mês. A Copa deve ser o acelerador do seu posicionamento, nunca a sua única razão de existir.
No marketing esportivo, o ativo mais valioso não é a taça, é a jornada do fã. Por isso, antes de desenhar o plano de mídia focado no título, a verdadeira pergunta de um milhão de dólares não é como faturar se o Brasil ganhar. A questão estratégica essencial é: como vamos continuar relevantes para o fã se o resultado na tela for o pior esperado? É nessa resposta que o patrocínio deixa de ser uma aposta na empolgação e engajamento do momento e se torna construção de marca.
Liana Bazanela é cofundadora da HOC Sports.


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial