Por Nilson Mello O conteúdo da TV aberta brasileira é de baixa qualidade e não contribui em nada para a melhora do nível educacional da população. Tampouco para o seu enriquecimento moral, pois o que prevalece nas programações, salvo as honrosas exceções, é o pior parâmetro de comportamento social.
Do ponto de vista estritamente técnico, até se tem produções bem cuidadas e elaboradas. Do ponto de vista cultural, porém, vivemos a barbárie eletrônica, um verdadeiro desmonte das boas regras de civilidade.
Uma das causas do problema está, obviamente, na própria população. Deseducada, ela não é capaz de exigir um conteúdo melhor. Simplificando, não adianta transmitir Mozart para um público ávido por Big Brother.
No longo prazo, se tomarmos a decisão certa hoje, a saída é simples. Um forte investimento em educação – algo que ainda está longe de ocorrer – fomentaria um público mais exigente, uma TV de melhor conteúdo e, conseqüentemente, um círculo virtuoso, autoalimentável. Mas é preciso tomar a decisão certa e urgente de investir em educação.
O problema está no curto prazo, porque enquanto não rompemos o outro círculo, o vicioso, as TVs continuarão a gerar conteúdo ruim, com efeito deletério sobretudo sobre os jovens, que não poderão se tornar os líderes que o país espera que sejam (podendo, contudo, tornar-se maus líderes, como já ocorre).
Censurar a TV, mesmo que de forma oblíqua, com a criação de Conselhos federais destinados a “zelar” pela boa informação – algo já proposto pelo governo para o jornalismo, mas em boa hora arquivado -, certamente não é a solução, tendo em vista o risco que tal medida significaria para um bem maior, a Democracia.
A criação de uma Rede de Emissoras do governo, a TV do Executivo, conforme anteprojeto apresentado em 13 de março pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa, também não é de forma alguma uma contribuição inteligente para resolver o problema. Até porque nada garante que o seu conteúdo seria de qualidade. Aliás, tudo leva a crer que não, uma vez que o próprio ministro adiantou que o principal objetivo da nova TV será divulgar as realizações do governo!
Em suma, a nova rede faria propaganda do governo, às custas de nosso dinheiro. E seria mais do mesmo, porque, para saber o que o governo faz de supostamente bom, já temos a Radiobrás, a Voz do Brasil, as emissoras públicas (Educativa, Cultura etc), que dão destaque à cobertura oficial, e as inúmeras e muito bem estruturadas assessorias de comunicação que funcionam dentro de cada ministério, de cada órgão da esfera federal, alimentando com seu noticiário as
redações de jornais e emissoras privadas.
Não é pouco o dinheiro que se pretende destinar para a implantação da TV do Executivo: R$ 250 milhões em quatro anos, ou seja, cifra mais do que suficiente, por exemplo, para resolver o nó logístico nos portos brasileiros, hoje saturados e incapazes de dar vazão ao crescente comércio exterior.
Fica claro que a TV do Executivo nem vai “redemocratizar” a mídia, como pretende o governo, seja lá o que isso signifique, nem contribuir para melhorar a qualidade da programação. Mas poderá muito bem ser mais um órgão estatal a servir de moeda de troca do assistencialismo e do clientelismo que permeia a máquina pública. Além de contribuir, fortemente, para o aumento dos gastos correntes do governo, da dívida pública etc.
Um choque de mercado, a partir de novas regras de defesa da concorrência, incluindo uma mudança na concessão de emissoras, é o que precisaria ser feito para promover uma pulverização nos meios de comunicação, gerando mais competitividade, diversificação de conteúdo e pluralidade de idéias.
Isso sim seria salutar para a democracia e também ajudaria a resolver, em certa medida, a questão da qualidade, pelo efeito da competição entre um maior número de emissoras.
Já a TV de propaganda oficial, esta com certeza nós não precisamos. Quem precisa delas são os políticos.

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