Por Antonio de Oliveira
Um passeio por Nelson Rodrigues é sempre instigante e mexe mesmo até com quem nunca leu uma só frase dele. Tanto que logo que senti que este era o tema da matéria, parei ali, no Canal 38 da Sportv, para assistir, ouvir e até dar algumas boas gargalhadas. Se repetirem, estarei de novo na assistência.
Mesmo quando tenta ser dramático ou humorista, ele acaba dizendo coisas seríssimas, que cada um absorve conforme seu modo de levar a vida. Sempre encontramos em seus textos ensinamentos, obviedades, comparações, pensamentos que parecem que nos são íntimos, ou, no mínimo, pragas que um um dia já torcemos para que caíssem sobre alguns dos nossos inimigos.
No sábado, quando ia para a Expointer, fui também ouvindo no trem pela nossa FM Cultura 107,7 (até um tresloucado pastor entrar em cima do sinal), entre outras coisas boas, uma entrevista com a filha de Nelson, que revelou a existência de cerca de 850 textos dele, espalhados por ai, e que ainda não foram reunidos em nenhuma publicação. Ela já selecionou cerca de 70 deles para o primeiro livro de uma série de inéditos.
Entre as grandes paixões de Nelson saltavam lá na frente o Brasil e os brasileiros, o seu querido clube, o Fluminense, o futebol como um todo, em especial seus personagens principais, os jogadores, a alegria ou a ira que eles despertam no povão. Foi em cima destas coisas que ele trabalhou a vida inteira, mesmo no período em que esteve totalmente cego. Um amigo meu gostava dele pelo personagem que “faturava” a própria cunhada.
Recuperada a visão, voltou ao Maracanã com a mesma caneta afiada de sempre. E quando não enxergava bem, perguntava ao vizinho do lado o que estava acontecendo em campo. Em cima das informações que recebia, escrevia sua crônica.
Foi assim que um dia disse que o que ganha e perde no futebol é a alma. Acertou em cheio. É uma bela frase para se recordar numa segunda-feira, após uma derrota do Inter em um Gre-Nal no Beira-Rio, em que a alma do Grêmio foi fundamental para garantir a vitória. As bolas do Inter insistiram em não entrar porque o Inter jogou sem alma.
Como faz há um longo tempo. O Inter perdeu sua alma e está difícil de reencontrá-la.

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