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Noche de Ronda

Por J. A. Moraes de Oliveira Ele era um executivo formal e comedido em suas palavras. Nascido de uma família tradicional da Filadélfia, Bert …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Ele era um executivo formal e comedido em suas palavras. Nascido de uma família tradicional da Filadélfia, Bert se orgulhava de seus antepassados, entre os quais, dois condecorados generais da Guerra da Secessão.

Sua mulher, Angelina, era exatamente o oposto: uma panamenha alegre e expansiva, que tinha os olhos e os belos cabelos de Maria Félix. Ela vivia cantarolando boleros mexicanos e velhas canções de Agustín Lara.

Eu nunca mais conheceria um casal como aquele.

Angelina aparentava o protótipo da mulher latina – sedutora e superficial. Tinha um espanhol carregado de sotaques, mas seu francês e inglês eram irretocáveis. E na parede da sala, mais uma surpresa – um vistoso diploma de mestrado de Filosofia pela Universidade da Flórida.

Quando cheguei à costa oeste da Flórida para visitá-los, a CNN anunciava a cada 10 minutos que dois grandes furacões estavam se formando sobre o Caribe e que chegariam ao Golfo do México em poucos dias. E já eram tratados familiarmente de Alicia e Camille.

Mas não foram exatamente os hurricanes que perturbaram a calma daqueles dias de céu azul e de noites enluaradas. As turbulências começaram quando conheci de perto o dia-a-dia dos meus amigos floridianos, seu respeito à liberdade e o seu inabalável culto ao individualismo.

Bert passava a maior parte do tempo viajando pela América do Sul, em visita às filiais de uma multinacional. Ele era auditor, com a função de descobrir desfalques e fraudes contábeis. Seu biotipo era tipicamente anglo-saxão, mas falava um espanhol sem sotaque e conhecia bem os maneirismos e espertezas dos hermanos.

Disse-me que, enquanto circulava pelas filiais, usava sua cara de gringo desentendido, participando das conversas dos funcionários e gerentes. Ninguém desconfiava de seus talentos de investigador e quando descobriam, era tarde demais.

Ele terminava sua missão, entregava o relatório em Miami, abaixava a capota de seu Cadillac conversível e cruzava a Florida, de volta para casa. Alguns dias depois, um time de fiscais chegava à filial, com uma lista de promoções na mão direita e uma de demissões na esquerda.

Bert parecia divertir-se com o que fazia, garantindo que podia farejar fraudes à distância. E que seu estilo de “tolo entre espertos” já havia recuperado alguns milhões de dólares para sua empresa. Ao mesmo tempo, receava que sua carreira estivesse com os dias contados, pois restavam poucas filiais na América Latina que ainda não haviam recebido sua visita.

Durante suas ausências, Angelina se sentia solitária e depois de alguns dias, profundamente entediada. Em um impulso, tomava o primeiro avião para o México, onde se divertia com as amigas, bebericando Margaritas e dançando a salsa.

Quando Bert voltava para casa, encontrava um bilhete de poucas palavras junto ao telefone:

“Me fui a bailar. Besos, Angelina.”

Ele parecia não se importar, envolvido no trabalho e absorvido nas tarefas de sua próxima viagem.

Quando Bert e Angelina contaram esta e outras estórias, fiquei sem saber o que pensar. Eles achavam graça do meu embaraço, afirmando sua crença na tolerância mútua e no respeito às liberdades de cada um. E evitavam as cobranças, que, segundo eles, eram a causa da ruína da maior parte dos casamentos.

“No soy celosa”, arrematava Angelina.

E Bert, silenciosamente, assentava com a cabeça.

Mas, quando discutiam, ela jogava seus cabelos à Maria Felix sobre os ombros, colocava as duas mãos na cintura e disparava uma linguagem que ninguém entendia. Era uma mistura do espanhol cantado dos venezuelanos, com sotaque mexicano, temperado com gírias caribenhas.

Um dia, fomos até St. Petersburg, para ver as grandes pinturas de Salvador Dali no museu da cidade. Não demorou 2 minutos, Angelina, embaralhando seus sotaques, anunciou que não gostava de museus e que preferia tomar sol e passear de lancha.

E seguiu em frente, abanando seu grande chapéu branco.

Eu olhei para Bert, ele olhou para mim. Ele sacudiu a cabeça, mais divertido do que envergonhado com a performance de Angelina. Ao longe, o mar do Golfo parecia mais azul do que nunca.

Dois dias depois, saímos para jantar. Angelina afastou o cardápio e invadiu a cozinha do restaurante, cujo chef dizia ser um velho amigo do México. Voltou sorridente, garantindo que naquela noite iríamos conhecer a verdadeira cozinha centro-americana.

O jantar foi uma revelação, com pratos que misturavam suculentos frutos tropicais com lagostas e camarões frescos. Me derramei em elogios à comida e logo depois, o chef chegou à mesa e começou a servir-se generosamente de vinho branco.

Mais garrafas chegaram e comecei a temer pelos próximos acontecimentos, pois o chef mexicano parecia ter se esquecido de sua cozinha, enquanto Angelina fazia ondular seus belos negros cabelos ao ritmo de um grupo de mariachis, que tocava ao fundo.

Enquanto isto Bert parecia entediado, investigando seu prato de Pollo Loco. 

Achei melhor ir embora e pedi um táxi, pretextando dormir cedo. Mas Bert imediatamente se levantou da mesa e me levou até o hotel em seu Cadillac conversível.

Tentei acenar um adeus a Angelina, mas ela conversava animadamente com os mariachis do outro lado do salão. Não esperei para ver se ela se preparava para cantar ou dançar. No dia seguinte, voltei para o Brasil.

***

Um ano depois, em uma véspera de Carnaval, reencontrei Bert no Aeroporto do Galeão. Aparentava cansaço e mostrava desalento. Disse-me que vendera sua bela casa no Golfo e estava se mudando para um apartamento em Miami, próximo à sede da empresa.

Perguntei por Angelina e, quase ao mesmo tempo, adivinhei a resposta – ela estava em um cruzeiro pelo Mar do Caribe, a caminho de uma temporada no México.

E ali ficamos, em constrangido silêncio por alguns minutos, sem saber o que dizer e evitando olhar um para o outro.

Para o alívio de nós dois, os auto-falantes anunciaram a última chamada do vôo para Santiago do Chile. Bert me deu um abraço rápido e dirigiu-se lentamente para os portões de embarque.

Impotente, fiquei olhando meu amigo gringo se afastar e se perder na multidão apressada.

Foi quando me vieram à lembrança os versos de Agustín Lara que Angelina gostava de cantarolar:

 “Dile que la quiero,
Dile que me muero de tanto esperar,
Que las rondas no son buenas,
Que hacen daño, que dan penas,
Que se acaba por llorar”

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