Por João Carlos Ferreira da Silva
Foi-se o tempo em que, para ser prestigiado entre os amigos, bastava demonstrar conhecimento – de preferência, um pouco mais do que o real. Agora todo mundo tem informação, sobra informação, e saber o que anda acontecendo não garante nada, até porque aquele rapaz de óculos, lá na direita, está com jeito de quem saiu há pouco da Internet, pode ter umas “últimas” mais últimas do que as suas.
Nos anos 80, 90 – lembra? – você entrava numa festa, cumprimentava os donos da casa e os mais chegados, sentava numa roda com alguns amigos, vários conhecidos, uns que nunca vira, e era só esperar um pouco.
– Já leram o último do Kundera? – perguntava alguém (podia ser outro autor, claro, moda é moda).
E você, não rápido demais, não que parecesse resposta pronta, mas o suficiente para falar antes do outros, e com os olhos meio voltados para cima, como se falasse consigo mesmo, comentava:
– Ele está menos reflexivo do que em A insustentável leveza do ser.
Pronto!
Sem dizer nada comprometedor, sem deixar claro se lera ou não lera, sem dizer se gostara ou não, você marcara um ponto!
E ainda acertara em usar “ele”, para não arriscar a polêmica sobre Kundera ou Kúndera, o que seria irrelevante, mas vamos que alguém tivesse andado recentemente pela Tchecoslováquia e roubasse o espetáculo?
Hoje, não.
Você entra na festa, vê menos amigos, menos conhecidos, mais gente estranha.
Ninguém faz apresentações, são os desconhecidos que se apresentam, e não como fulano de tal, advogado, professor, jornalista ou arquiteto, mas por supostas habilidades e gostos.
– Sou muito místico, cara, sei que há muita energia por aí que pouca gente percebe.
– Sou vegano, não como nem exploro meus irmãos.
– Bebo todas; mas, se for uísque, melhor…
(Ótimo, você pensa, ao menos alguém com quem se pode chegar a um acordo).
– Estudo sexo tântrico!
Não dá para responder nem para mudar de assunto; melhor aguardar.
Aí, começa:
– E o Michel, heim, já se separando…
Azar seu, você pensa que é seu amigão Michel, casado há pouco, reage com surpresa e tristeza, mas em seguida percebe que não é, é o Teló.
Michel Teló!
Aprenda: parente, amigo, gente do dia a dia não é mais assunto, nem para fofoca, nem para conversa séria e pesarosa. Agora, falamos dos famosos, e de preferência dizendo Michel, não Teló ou Michel Teló, afinal somos todos muito próximos.
Também não tente se fazer de bobo: você sabe, sim, todo mundo sabe, e se fingir desconhecer o edredom do BBB, por exemplo, corre o risco de ouvir daquela magrela da ponta, cujo nome você sempre esquece:
– Para com isso, todo mundo vê o BBB!
Você não vê, mas quem vai acreditar?
Melhor se recolher, cuidar a hora certa de voltar e, se possível, com uma mistura de desconhecimento e confusão:
– Luiza? Que Luiza? A Possi, ou aquela que andou no México? Ou seria Canadá?
Aí, sim, você talvez ouça as duas moças ali do lado cochichando:
– Esse cara é bom, esse cara não se deixa enganar. Tem uma ignorância tão verdadeira…

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