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O Almanaque

Por J. A. Moraes de Oliveira Ele observava, entre curioso e encantado, certos hábitos que se repetiam obsessivamente na antiga Fazenda da Invernada. Nos …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Ele observava, entre curioso e encantado, certos hábitos que se repetiam obsessivamente na antiga Fazenda da Invernada. Nos tempos de plantio ou de tosa das ovelhas, um dos tios mais velhos entrava no quarto do avô e retirava o livro de capa amarela da gaveta de cima da cômoda de carvalho, que ficava junto à cama.

Fermino das Dores ardia de vontade de saber os segredos daquele livro, que os mais velhos consultavam com tanta diligência. Afinal, mesmo seu avô, que sabia das chuvas e dos ventos, passava horas lendo e relendo suas páginas, para depois guardá-lo na cômoda, não sem uma certa cerimônia.

***

A oportunidade chegou em uma manhã de verão, quando nuvens escuras cobriam o céu para os lados do Cerro Pelado. O avô reuniu às pressas os peões e saíram a galope para tentar recolher o gado nas invernadas, antes que chegasse o temporal.

Mal os cavalos sumiram atrás das coxilhas, Fermino foi até o quarto do avô e, na ponta dos pés, alcançou o tal livro. Cuidou de evitar a cozinha, onde as mulheres preparavam o almoço, e se refugiou debaixo dos cinamomos.

Reparou se não havia ninguém por perto, acomodou-se em um banco com o livro no colo e leu o título: “Almanaque Bertrand 1946″. No centro da capa, um barco de pescadores lutando contra o que pareciam ferozes tubarões. E, abaixo, os nomes dos editores:”Livraria Bertrand, Lisboa”.

Abriu o livro e se encantou com um calendário que não imaginava existir: a cada dia do ano, a imagem de um santo. As fases da lua, as marés, os ventos e as quatro estações eram representados por figuras mitológicas. E, ao lado dos meses do ano, instruções para o plantio, colheita e para a cura de doenças em bois, ovelhas e cavalos.

O calendário avançava até o ano 2000. Como seria possível aquilo? Procurou o dia de seu aniversário naquele ano distante – viu que cairia em um domingo. Tentou calcular que idade teria, mas desistiu e folheou algumas páginas. Entre um ano e outro, alternavam-se contos de aventuras nos sete mares, com desenhos de monstros marinhos e estórias de crimes famosos, com um bandido mal-encarado empunhando uma afiada faca.

***

Fermino foi adiante e chegou às “7 Maravilhas do Mundo Antigo”, onde se contava como elas haviam sido construidas e como desapareceram. Ficou imaginando como seria bom ler mais sobre o Colosso de Rhodes e o Farol de Alexandria.

Demorou-se um tempo em “Passatempos e Habilidades”, onde desenhos numerados ensinavam como se fazer dobraduras de papel ou como empilhar as 52 cartas de um baralho.

Assoprou baixinho: “Então era ali que o Tio Dedé aprendera como fazer os passarinhos de papel, que jogava do alto da torre do catavento e ficavam planando no ar sem cair…”.

O livro estava muito manuseado e tinha anotações nas margens, com os cantos dobrados nas páginas das fases da lua e das receitas de xaropes e ungüentos caseiros para curar bichos e pessoas.

Lembrou-se que o avô havia consultado o almanaque quando seu cão pastor fora picado por uma cobra coral. A avó preparara no fogão de lenha uma mistura mal-cheirosa de ervas e raízes e, no dia seguinte, o cachorro estava correndo atrás dos coelhos.

Ele passou pelas biografias de santos e descrições das grandes catástrofes da História. Se agradou das ilustrações do terremoto de Lisboa, as ondas gigantescas invadindo a cidade e pessoas fazendo caretas de pavor.

***

O tempo passou sem Fermino notar, mergulhado que estava em descobertas cada vez mais envolventes. Quando chegou à parte central do livro, as páginas eram cor-de-rosa e um título lhe chamou a atenção:

“A Paris Misteriosa da Bela Época”.

As ilustrações eram sugestivas, mostrando personagens passeando em lugares pitorescos de que nunca havia ouvido falar. Sôfrego, leu os títulos: “O Nascimento do Cinema”, “Nos Tempos do Cabaret” e “As Alegres Noites do Moulin Rouge”.

Parou, diante do rebuscado desenho de homens elegantes em trajes de gala e mulheres com grandes decotes, sorrindo e erguendo suas taças. Pareciam muito felizes da vida. A legenda era provocante: “Os Segredos do Bas-Fond”. Olhou disfarçadamente para os lados e começou a ler o texto em letras miúdas.

***

Mal passou das primeiras linhas, quando o tropel dos cavalos o assustou. Fechou o livro e correu para dentro da casa. No momento em que enfiava o livro na gaveta, ouviu o tilintar das esporas nazarenas do avô, riscando os tijolos do chão da cozinha.

Caminhou sem pressa até o terreiro, fazendo de conta que olhava os peões desencilharem os cavalos. Na porta de entrada, o avô observava com suspeita o horizonte, onde se viam relâmpagos iluminando as nuvens escuras.

O ribombar da trovoada anunciou que uma grande tempestade estava chegando. Correram todos para dentro de casa, enquanto grossos pingos d”água batiam na poeira do terreiro. Sentaram-se à volta da longa mesa, ouvindo a chuva desabar com fúria.

Fermino mordiscava distraído sua comida, enquanto o avô e os tios cortavam grandes nacos de carne de ovelha, usando facas de cabo de prata. Eles comentavam as lides do dia e faziam planos para quando a chuva passasse.

Sentiu alguma coisa que não sabia explicar. Havia descoberto um livro que continha os segredos dos homens mais velhos. Agora, poderia entender o que eles falavam entre si, quando pensavam que as crianças não estavam escutando.

Era preciso paciência e esperar a hora. Quando a casa se acalmasse, ele voltaria para apanhar o almanaque. Encontraria um lugar longe e sossegado, para ler com calma aquilo que só vira de relancina.

Então, saberia a resposta para a pergunta que fazia ferver sua curiosidade: quais seriam “Os Segredos do Bas-Fond”?

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