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O apagão ético que assola o país

Por Carlos Chaparro O XIS DA QUESTÃO – Na verdade, Paulinho e a sua Força Sindical não querem processar a Folha. O que eles …

Por Carlos Chaparro

O XIS DA QUESTÃO – Na verdade, Paulinho e a sua Força Sindical não querem processar a Folha. O que eles querem mesmo é que os jornais se calem. Nessa atitude, e nesse pensar, se manifesta o “apagão ético” que assola o País: a ausência de motivações e razões Éticas no agir político, tanto no centro como nas periferias do governo. E quando assim é, e porque assim é, espezinham-se os princípios e valores que dão fundamento à República, nos quais está a instância da Ética.

1. O enterro da Ética

Mais do que enojado com o perfil ético dos políticos brasileiros, entrei em estado de desesperança. Não é coisa boa, eu sei. Sei que perder a esperança em ideais e ideários é, de alguma forma, aceitar a renúncia à luta – no caso, a luta cidadã pela construção de uma sociedade Ética. Sem esperança, não há razões para lutar, qualquer que seja a luta. E aprendi isso com dom Helder Camara, quando dele ouvi a revelação do seu maior temor, o temor de que o povo perdesse a esperança.

“Sem esperança não haverá luta nem razões para lutar”, dizia ele.

E para que a esperança não morresse, dom Helder juntava as pessoas. Com explicação igualmente sábia: – “Quando sonhamos sozinhos, é só um sonho; quando sonhamos juntos, é o início de uma nova realidade”.

Pelos sussurros que ouço das ruas, a descrença nos políticos espalha-se com velocidade de rastilho aceso. Não é para menos. Até o homem que nos prometeu uma revolução ética, aquele que, com essa e outras promessas, levou os nossos votos e as nossas esperanças, só agora nos deixa perceber que, na boca e no entendimento dele, Ética era apenas palavra sonora, boa de dizer. E melhor ainda enfeitar discursos eleitorais.

Pelos vistos, e a julgar pelo que diz e faz, o homem não tem a mínima noção do que seja Ética. E isso faz mal ao Brasil. Porque de um presidente da República se esperariam bons conceitos, bons conselhos e bons exemplos.

Mas, em matéria de Ética, o que temos visto e ouvido é o oposto do que esperávamos – tanto nos conceitos quanto nos conselhos e nos exemplos.
Já não falo do mensalão, do qual o depositário das nossas esperanças jurou a pés juntos nada saber. Nem dos mensaleiros, que saíram do palácio, mas aos quais jamais faltaram afagos presidenciais. Freqüentemente, afagos públicos. Mas falo dos novos protagonistas em novos e sucessivos escândalos.

Falo do escândalo dos cartões corporativos e do escândalo das ONGs favorecidas com verbas públicas por critérios partidários; falo desses nojentos jogos de poder onde tudo se troca entre os partidos e nos quais jamais entram os interesses da Nação; falo da política de trancas na porta depois da casa arrombada. Falo de frases que tudo desculpam, como as que inocentaram ministros que usaram dinheiro público para saborear tapiocas e fazer compras pessoais.

E falo dos irados arroubos verborrágicos, nada republicanos e nada democráticos, que questionam o dever que a Constituição impõe ao Poder Judiciário, de zelar pelo cumprimento das leis – inclusive as eleitorais.

Falo, também, de silêncios simbólicos, como aquele em que, para não pôr em risco uma conveniente aliança partidária (leia-se PDT), se ignoraram as recomendações da Comissão de Ética Pública da Presidência da República, no sentido de preservar a dignidade e a credibilidade da função de ser ministro (leia-se Ministério do Trabalho e ministro Carlos Lupi).

Falo, por fim, das imprudências verbais que estimulam cerceamentos à liberdade de expressão e ao direito à informação. Como aquela do público apoio político dado à orquestração de ações impetradas por fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus, contra a Folha e a jornalista Elvira Lobato, campanha em que o objetivo era claramente o de amedrontar e inibir a ação jornalística, não a proteção de direitos ofendidos ou ameaçados.

2. Bom mestre, melhor aluno…

E porque o exemplo vem de cima, o que o presidente da República diz e faz, ou deixa de dizer e fazer, funciona como modelo a seguir.

Não deu outra: o bom aluno Paulo Pereira da Silva, mais conhecido por Paulinho da Força Sindical, protegido pelo implícito aval da fala presidencial em favor da Igreja Universal, resolveu também ameaçar a Folha e O Globo com uma enxurrada de ações. Foi assim que reagiu a reportagens que, baseadas em dados da Controladoria Geral da União, denunciavam a existência de convênios irregulares na esfera do Ministério do Trabalho, com o favorecimento de ONGs ligadas ao PDT. Entre elas, algumas vinculadas à Força Sindical e a outras entidades sindicais.

Que fique claro: o problema não está da decisão de processar a Imprensa, até porque essa é uma ferramenta da cidadania, quando se trata de proteger a honra e a dignidade de pessoas ou instituições. O problema está nas razões que motivam as ações.

Que são ações táticas de chantagem, segundo o próprio Paulinho.

Vejam só os modos como ele explicou a reação da Força Sindical, em entrevista dada ao Comunique-se:

“Se a Folha parar de esculhambar a Força Sindical, vamos rever a entrada de ações”.

Assim, com sua sabedoria ou sua burrice, o deputado Paulo Pereira da Silva (deputado, sim, do PDT, o mesmo partido do ministro Carlos Lupi), escancara o “apagão ético” que atinge a cultura política brasileira em geral, e o atual governo, em particular: processar ou não processar a Folha e seus jornalistas não é uma questão de defesa de princípios, valores ou direitos ameaçados, mas a defesa de posições e vantagens políticas no xadrez do poder, do qual faz parte a distribuição de verbas.

Paulinho faz a ameaça esperta de um “acerto de contas”. Mas promete “paz”, se os jornais pararem de mostrar a porcaria. 

Na verdade, Paulinho e a sua Força Sindical não querem processar a Folha. O que eles querem mesmo é que os jornais se calem.

Nessa atitude, e nesse pensar, se manifesta o “apagão ético” a que me refiro: a ausência de motivações e razões Éticas no agir político, tanto no centro como nas periferias do governo. E quando assim é, e porque assim é, espezinham-se os princípios e valores da República, nos quais está a instância da Ética.

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