Por J. A. Moraes de Oliveira Fazia muito frio em New York e eu estava atrasado para a reunião das 9 horas. Ficara até tarde da noite lendo no quarto de hotel o artigo de capa da Fortune sobre o bilionário Daniel Keith Ludwig. O mesmo personagem que havia sido manchete, poucos dias antes nos principais jornais brasileiros, ao anunciar um investimento de um bilhão de dólares no Amazonas. O mega-projeto Jari previa uma nova cidade na selva, um porto artificial e até uma gigantesca serraria flutuante, que seria trazida por mar desde um estaleiro no Japão.
Caminhei apressado ao longo da rua 55 para alcançar o Burlington Building na Sexta Avenida. Lá no alto, nos andares 44 e 45, ficava a NW Ayer, a agência que acabara de conquistar a conta mundial da Pan American World Airways. A reunião era para aprovar as campanhas de propaganda para os mercados da América Latina. A campanha brasileira, criada pela MPM do Rio de Janeiro, estava na pasta que eu carregava debaixo do braço.
Quando entrei no hall do Burlington, todos os doze elevadores já haviam desaparecido nas alturas do imenso prédio de aço e vidro. Corri para o único elevador vazio, no fundo do hall, que estava ocupado apenas por um homem. Murmurei uma saudação, ao mesmo tempo em que apertava o botão do 44º andar e consultava o relógio. Notei então que o botão da Penthouse, no último andar, também estava iluminado. Olhei ao redor e vi que o elevador era forrado de painéis de madeira e era equipado com uma banqueta de couro vermelho no fundo. Senti que alguma coisa estava errada (com certeza aquele não era um elevador comum, como os que eu havia usado nos outros dias).
Disfarçadamente, passei a observar o meu silencioso companheiro de viagem. Era um homem magro, de uns 60 anos, vestindo roupas que pareciam ter sido compradas no Mappin de São Paulo. O chapéu, que carregava nas mãos, certamente já vira dias melhores. E um simples detalhe me chamou a atenção – a caneta que ele usava no bolso externo do casaco.
O elevador chegou ao 44º andar, cumprimentei o estranho e saí, esbarrando com Ron Ricca e George Verona, meus colegas norte-americanos da agência, que me esperavam, preocupados com meu atraso. Mas eles não me cumprimentaram imediatamente, pois mantinham seus olhares presos no elevador às minhas costas. Os dois voltaram-se para mim, ainda mais espantados, perguntando que diabos eu estava fazendo naquele elevador.
Não entendi a pergunta, entregando a pasta com os anúncios da campanha brasileira. Meus amigos começaram a rir histericamente, enquanto eu tentava descobrir o que estava acontecendo.
“Você estava no elevador privativo de Daniel Ludwig”, sussurrou Ron, ainda entre risos. Neste momento, me dei conta que tinha viajado 44 andares com um dos mais reclusos milionários de New York. E que era o dono do prédio, de meia dúzia de bancos em Wall Street e de mais hotéis do que o próprio Conrad Hilton.
Ainda estonteado, entrei na sala de reuniões para apresentar meus anúncios.
Quando meus batimentos voltaram ao normal, notei pelos olhares divertidos, que minha pequena aventura no elevador já era conhecida por todos. Logo vieram as apresentações do México, da Argentina e da Venezuela. Ao final, o vice-presidente da agência levantou-se para anunciar que os anúncios se enquadravam no conceito da campanha mundial e que seriam levados ao cliente para aprovação.
E voltando-se para mim, usou seu pior sense of humour anglo-saxão para registrar o diferencial criativo da campanha brasileira – ela fora apresentada por um grande amigo de Daniel Ludwig.
De volta ao hotel, reli com renovada atenção a reportagem da Fortune e fiquei ainda mais assustado. Ela revelava que o meu breve companheiro de elevador começou sua carreira aos nove anos de idade, quando comprou por 25 dólares um pequeno barco afundado, reformando-o e revendendo-o por 100 dólares. Continuou comprando e revendendo barcos e, 25 anos depois, possuía mais navios-petroleiros do que Stavros Niarchos e Aristóteles Onassis juntos.
Era descrito como uma pessoa tímida, que não bebia, não fumava, que comia frugalmente e que nunca carregava dinheiro consigo. Percorria todos os dias a pé a distância entre um duplex na rua 57 e seu escritório no Burlington Building. Mais ainda, Mr. Ludwig não gostava de bancos, mas podia preencher, a qualquer hora, um cheque de 100 milhões de dólares. Detestava falar com estranhos e a entrevista à Fortune era a primeira em toda a sua vida.
O título na capa da revista era “O Bilionário Invisível”.
Lembrei-me então da caneta que Mr. Ludwig carregava no bolso do paletó. Era uma “Paper Mate” de resina, daquelas que podiam ser compradas na papelaria da esquina por 5 dólares.
Foi quando quase joguei no lixo a minha Parker 51 dourada.

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