Por Antonio Oliveira
Os três bem velhinhos vêm pela calçada da República. As duas mulheres, uma de cada lado, amparam e ajudam o homem a caminhar. Ele parece ser o mais velho e frágil dos três. Ao ver a banquinha que vende chapéus e outros adereços para o Carnaval, ele não se contém. Pede que elas parem. Escolhe o que para ele é o chapéu mais bonito, bota na cabeça e não tira mais. Elas pagam e seguem em frente pela calçada, acompanhando a Banda DK. Felizes.
Da mesma forma, aquela moça que não é feia, segue a banda, cantando e marcando com os pés todas as marchinhas antigas chamadas pela valente banda que acompanha o carro de som da FIGTF. Mas ela é jovem, dentro das suas roupas normais, comuns, com a bolsa na mão, como se viesse de algum compromisso sério e tivesse sido surpreendida pela animação da rua.
A jovem segue todo o percurso sozinha. Dá vontade de perguntar por que ela, uma jovem bonita, está sozinha, mas não me atrevo, pois hoje, principalmente nós homens de mais idade, podemos ser surpreendidos por uma acusação de assédio ou outra bobagem qualquer e acabar nos enredando, quando o que queremos mesmo é apenas olhar e acompanhar as pessoas brincando felizes.
E tem também aquele casal magérrimo. Ele com a barba por fazer e ela fantasiada. Brincam separados. Ele faz as mais incríveis manobras na sua desengonçada dança, com a garrafa na mão (ou era uma lata?). Por algumas vezes penso em ampará-lo, adivinhando que vai cair, mas ele inventa uma nova ginga e se põe novamente ereto, marchando. Ela só flui, controlando as enviesadas manobras de liberdade do seu amante pelas ruas.
Olhando Vera Daisy cantando e sambando é impossível não lembrar do negro Roxo e os rolos que ele aprontava (no bom sentido) na Banda DK. Vendo Pernambuco, o ritmista Adroaldo e outros, não há como não recordar Glênio Peres, Pilla Vares, Melchíades, Nêga Lú, Gaguinho, Paulo Maciel e outros. Gente que passou pela banda e que já se foram. Emoção.
Pernambuco não deixa a banda morrer. Quando ela vacila, ele busca uma marchinha lá do fundo da algibeira e manda. Sempre assessorado pelo competente Gilberto José, um marrento e valente cantor de bares e bandas que sabe tudo. Não é por pouco que ele é conhecido como “o cantor que tem uma lágrima na garganta”. Chega ou querem mais?
E a banda também não esquece de homenagear Wando. Lembra por várias vezes as suas músicas mais conhecidas. E é bonito ver foliões cantando, sambando e abanando das áreas dos apartamentos ao longo do trajeto. Principalmente pessoas de idade mais avançada. No chão, seguindo a banda, a maioria é de jovens, garantia de que a banda não morrerá.
Conto estes detalhes do desfile da Banda DK só para mostrar como é importante este espaço conquistado há cerca de 40 anos por um grupo de carnavalescos, liderados pelo professor Waldemar de Moura Lima, o Pernambuco, que a nossa Câmara Municipal insiste em não adotar como Cidadão de Porto Alegre.
Gosto quando Pernambuco assinala nas entrevistas, que começamos isto durante a ditadura militar, quando as reuniões públicas eram proibidas, e acabamos abrindo o Carnaval oficial várias vezes e até elegendo uma princesa na corte oficial, para espanto das escolas de samba.
O velhinho, que hoje está doente, um dia deve ter sido uma pessoa alegre e divertida, um folião, assim como as suas duas companheiras amáveis e cordatas com seus desejos de carnavalesco; a moça que desfila e canta sozinha pela calçada; os namorados que brincam um perto/longe cuidando um do outro, também não esquecerão. Nem o vendedor de ceva e refri que acompanha todo o trajeto conduzindo seu carrinho com a ajuda da sua jovem companheira e da filha com cerca de três anos.
Para as cerca de 500 pessoas que acompanharam a Banda DK no sábado de Carnaval pela Cidade Baixa, ela sempre será um lugar conquistado pelo povo para brincar em liberdade. Amigos, namorados, pais e filhos cantando e pulando o seu Carnaval sem regras. Movido só a alegria.

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