Por Rafael Bordin Schuch
Devido à maior relevância e atuação do país no cenário internacional e à abertura recorde de embaixadas nos últimos anos, fruto da expansão brasileira ao redor do mundo e da maior representatividade nas decisões mundiais, no fim de março a presidente Dilma Rousseff autorizou a criação de mais 400 cargos de diplomata e 893 de oficial de chancelaria. Isso é um indicativo de que para o ano que vem deve ser ampliada a oferta de vagas para o corpo diplomático brasileiro, que atualmente é de 30 por ano. Estes novos contingentes de diplomatas que irão representar o país em foros internacionais e em temas relacionados à governança global, como o BRIC, têm agora um incentivo a mais para estudar com afinco os clássicos da literatura mundial que são um dos pré-requisitos básicos para passar nas provas de ingresso no Instituto Rio Branco.
O fenômeno da globalização é pauta recorrente. Mas por trás deste processo mundial existe nos bastidores um profissional que é preparado para organizar politicamente este movimento que a cada dia encurta mais as distâncias. O diplomata é o elo entre culturas diferentes que precisam se comunicar, e, além disso, assessora o mandatário de um país na relação com outros países e organismos internacionais.
Um dos representantes da arte da diplomacia que mais influenciou a história no século 20 foi Henry Kissinger, nascido na Alemanha e americano naturalizado, que, por ser judeu passou a infância como membro de uma minoria discriminada em um país supertotalitário. Emigrando e se estabelecendo nos Estados Unidos, teve papel decisivo na política externa americana entre 1968 e 1976, período do auge da Guerra do Vietnã, conflito preparado pelo governo de Eisenhower nos anos 50 e finalizado por Nixon com o Tratado de Paris em 1973. Dentro da política americana, o republicano Kissinger atuou como conselheiro de política estrangeira de todos os presidentes americanos, de Eisenhower até Gerald Ford.
Combinando a carreira de professor em Harvard com a participação ativa em conselhos de governo e participando de momentos de grave inquietação internacional, o polêmico e controverso Kissinger negociou com destreza e habilidade a retirada das forças americanas do Vietnã, acompanhando de perto o momento dramático da retirada final das tropas de Saigon, o que simbolizava a derrota do capitalismo no sudeste da Ásia. Do mesmo modo, foi um dos diplomatas que com habilidade, firmeza, paciência e alta capacidade de persuasão auxiliou na reaproximação dos Estados Unidos com a República Popular da China, se reunindo com Mao e o líder do partido comunista chinês Chu Em-Lai em 1971, sendo visto como o grande responsável pelo restabelecimento das relações políticas, econômicas e comerciais com o maior país comunista do mundo. Também se envolveu numa intensa atividade diplomática com os russos, criando a Détente (reaproximação) com a União Soviética.
Ao mostrar conceitos clássicos da arte do Estado, uma das mais importantes obras escritas por Kissinger que explica o universo das relações internacionais e o que é ser um diplomata, é o livro “Diplomacia”, atualmente editado pela editora Saraiva. Equivalendo a, pelo menos um semestre de um competente curso universitário, o livro foi lançado em 1994 e trata dos principais momentos da história mundial, tendo como ponto norteador a história da diplomacia, desde o século 17 com Richelieu, premiê da França por 18 anos e pai do sistema moderno de Estado, passando pelas tensões diplomáticas tanto da segunda guerra mundial quanto da guerra fria, até o fenômeno intensificado da globalização mundial nos dias atuais. Com grande poder explicativo, mostra como se formam as relações entre os países sob o olhar de uma testemunha ocular da história da segunda metade do século 20. Essencial para quem precisa não só entender como ocorrem as trocas políticas mundiais mas também os pré-requisitos necessários que precisa ter a pessoa que irá representar e negociar os interesses de uma nação a nível mundial.
Além disso, exercendo um poder maior que qualquer outro diplomata americano antes tinha obtido, a atuação de Kissinger cobriu não só a vertente política americana no exterior, mas também a esfera comercial, econômica, financeira, cultural e consular nas relações externas, áreas nas quais exercia perfeitamente as tarefas clássicas da diplomacia: representar, informar e negociar. Protegendo os interesses da política externa norte-americana no campo internacional, o principal conselheiro de Nixon durante a Guerra do Vietnã e do escândalo Watergate foi, juntamente com Richard Holbrooke (arquiteto nas negociações da precária paz da Bósnia e Herzegovina em 1995), um dos diplomatas americanos que mais pensaram as principais decisões da alta política mundial tomadas no século passado.
Até os críticos concordam e reconhecem que Kissinger foi não só o mais influente, mas também o maior diplomata do século 20 e um de seus maiores estadistas. O ganhador do prêmio Nobel da Paz de 1973, junto com Le Duc Tho, pelo acordo que terminou com a guerra do Vietnã, moldou o mundo mais do que qualquer outra pessoa. Para os inimigos ele foi responsável pelos bombardeiros de Hanói no Vietnã, pela morte do ex-presidente chileno Salvador Allende e milhares de esquerdista na América Latina. A história que julgará. Entretanto, ninguém teve mais influência na arquitetura geopolítica de hoje do que Kissinger que aos 88 anos mostra-se extremamente lúcido e produtivo, continuando a publicar longos ensaios e escrevendo livros, sendo a sua mais recente obra “Sobre a China” um best-seller internacional. Tendo passado a maior parte da vida escrevendo sobre relações internacionais e falando da balança de poder, atualmente é sócio da Kissinger Associates Inc., um escritório na Av. Park em Nova York que atrai empresas de todo o mundo interessadas em suas caras palestras. No passado, o conselheiro de Nixon definiu a política internacional, hoje, líderes ouvem seus conselhos.

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