Artigos

O dinheiro público na mídia

Por Eliakin Araújo Quando o ex-âncora do Jornal da Record, Boris Casoy, foi afastado da emissora, no final do ano passsado, pouca gente se …

Por Eliakin Araújo

Quando o ex-âncora do Jornal da Record, Boris Casoy, foi afastado da emissora, no final do ano passsado, pouca gente se deu ao trabalho de questionar as razões pelas quais o patrocinador, Banco do Brasil, estava tirando o time de campo. Num ano eleitoral, era bem mais interessante acusar o governo de “censura”, de ter “pedido a cabeça” do apresentador.

O próprio Boris desmente essa versão. Em entrevista ao site comunique-se, em 22 de março deste ano, ele fez questão de afirmar que meu contrato previa independência e a Record respeitou isso religiosamente. Perguntado se gozava de liberdade editorial na emissora do Bispo, Boris foi categórico: “Nunca houve nenhuma interferência. No caso do dinheiro transportado de avião, pusemos tudo no ar. Eu errei ao tirar a manchete sobre o assunto. No Jornal da Record sempre tudo foi coberto com liberdade. Muitas vezes, reconheço que a Igreja Universal é vítima de preconceito”.

Na mesma entrevista, mais adiante, Boris afirma que não há censura na mídia brasileira: “Há uma carga imensa de publicidade governamental, principalmente nos meios eletrônicos. Na minha opinião, os grandes jornais e revistas vivem a plenitude de sua liberdade, mesmo com problemas financeiros”.

Ou seja, Boris nunca teve problemas de relacionamento pessoal ou editorial com a emissora e sua saída, pode-se deduzir de suas declarações, se deu por motivos meramente comerciais. Apesar do carisma e do prestígio profissional do jornalista, seu telejornal não vinha apresentando bons índices de audiência.

O problema é como distribuir entre os veículos essa “carga imensa de publicidade governamental”, como lembra Boris. O critério deveria ser eminentemente técnico-científico, conduzido por um profissional especializado em mídia. Na prática, entretanto, isso nunca funcionou. Privilegiam-se veículos de acordo com interesses políticos. Cortar verbas publicitárias de um veículo poderoso é temerário. Ele pode se voltar contra o governo e aí um deus-nos-acuda, lá vem a artilharia pesada.

Assim, a relação cliente/agência/veículo, sobretudo quando o cliente é o governo e suas empresas, pode tornar-se promíscua, com perigosos meandros que facilitam uma troca de interesses, caminho aberto para a corrupção.

A propósito desse assunto, leio no blog Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, que o governo está começando a mudar as regras desse jogo injusto. O governo tem poder de fogo para enfrentar e acabar com antigos privilégios na distribuição de suas verbas. PHA cita o caso da TV Globo, que tem 50 por cento de audiência e recebe 75 por cento de toda receita do mercado.

Algumas dessas regrinhas, tremendamente importantes por se tratarem de dinheiro público, são: 1) A verba do governo será distribuída segundo a audiência; 2) A Secretaria de Comunicação vai comprar toda a mídia de todos os órgãos do governo e, dessa maneira, vai conseguir negociar descontos muito maiores.

A democratização da mídia brasileira passa, sem dúvida, por uma distribuição mais justa das verbas publicitárias do governo. Privilegiar veículos ou jornalistas apenas porque gozam de prestígio politico não é a postura correta de um governo. O bolo deve ser repartido de maneira equânime e rigorosamente de acordo com a audiência.

Agora é torcer para que o governo Lula, através da SECOM, consiga ganhar essa difícil batalha contra os poderosos da mídia. Não vai ser fácil.

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.