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O doce Mário

Por Enio Lindenbaum, para Coletiva.net

Uma polêmica gerada por uma fake news de um médico pernambucano, que tentando romantizar um gesto de generosidade dos Falcão para com o nosso maior poeta, Mario Quintana, terminou criando condições para retomar um pedaço importante da nossa história cultural.

Minha trajetória junto ao poeta começa após o caso narrado – sua saída do Hotel President, quando conheci Quintana já vivendo no Hotel Royal dos irmãos Falcão.

Pelas mãos do jornalista e advogado Marco Tulio De Rose fui apresentado ao poeta e sua sobrinha Elena, por conta de um problema de contratação de um evento de lançamento de livro de poesias da Bruna Lombardi, que tinha como patrono nosso poeta.

Como o evento era patrocinado pelo Zaffari, procurei o Luís Coronel que prontamente conciliou a demanda. Os cachês da Bruna e do Mário não estavam formatados a mesma maneira, destruindo uma natural isonomia entre ambos. O evento de lançamento do livro de poesias da Bruna estaria obviamente abrilhantado pela presença de Mario.

Por conta da resolução da empreitada sem atritos, formularam a mim e ao Marco Tulio  a proposta de assessorar a Elena nas questões comerciais e financeiras. Pedido prontamente aceito (já me vislumbrava entrando no céu após minha partida).

Algumas pessoas, recentemente, supervalorizaram minha atuação e aproveitando-se um fato onde não tive nenhuma participação, acabaram por trazer à baila outras participações na vida do poeta, com quem dividi muitas afinidades, incluindo o fascínio pela mitologia do vampiro.

Lembro de um momento mágico: por iniciativa do musico Henrique Mann que musicou os poemas do Mario com sua anuência, a Ribalta –

comandada pelo “príncipe” Paulo Satt  e a colega Eliete Quadros, produziu um disco que espalha sua magia até hoje.

Achei importante registrar também a creche Pé de Pilão, da qual fui co-gestor junto com a Rosvita Saueressig Laux e o Delmo Adams, que foi titulada pelo seu padrinho, Mario Quintana.

As visitas eram muito agradáveis, especialmente por suas tiradas espirituosas. Presenteava minhas filhas com pequenas peças e dizia “do mais velho dos seus namorados”. Pude proporcionar às minhas filhas e sobrinha uma convivência que ficou marcante em suas vidas.

Constumávamos chamar Quintan de Enfant Terrible, muito original e peculiar, tantas foram as vezes em que eu e Elena ficamos muito sem graça.

Certa feita a sra.Nilda Maisonnave, vistosa e exuberante esposa do banqueiro Roberto Maisonnave, assumiu a presidência da Associação do Amigos da Casa de Cultura Mario Quintana. Como não conhecia pessoalmente o poeta, levei-a no Hotel Residence para que o conhecesse. Mario, todo solícito, quase a paquerando, pergunta: a senhora é a esposa do banqueiro? No que foi prontamente respondido com um sim.

Mario pergunta: “a senhora sabe donde vem a palavra pecúnia?”

Eu e Elena trememos, nos olhando…..

Nilda responde que não e Mario solta: “pecúnia é vaca. Os dotes de uma mulher eram medidos por quantas vacas ela valia e a senhora é um estouro da boiada”

Pano rápido!

 

Quando do seu velório e deslocamento até o cemitério, a orientação de Elena foi que na frente, como família, fôssemos eu, ela e minha filha Luzia. Neste ato, a cidade homenageava seu maior poeta. Por onde passávamos havia pessoas aplaudindo, jogando papel picado, num show de respeito a Quintana.

 

Fui beneficiado em vida por esta convivência tão rica com Mario e também com Elena. Em relação a Marco Tulio igualmente, mas este já era um “irmão” desde muito tempo.

 

Agradeço a generosidade da lembrança de alguns, quando as redes sociais foram tomadas pelo relato de um episódio não inteiramente real. Houve exagero nos relatos, e o que fiz, penso ter sido pouco. Sempre vou achar que poderia ter feito mais.

Nada com e pelo Mario foi feito sozinho. Era um time. E que time.

Enio Lindenbaum é publicitário.

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