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O fim do jornalismo como braço da publicidade

Por Farhad Manjoo Uma enorme parte das críticas que temos ao jornalismo praticado hoje (como o motivo de os sites de notícia serem tão …

Por Farhad Manjoo

Uma enorme parte das críticas que temos ao jornalismo praticado hoje (como o motivo de os sites de notícia serem tão feios) pode ser vista tanto como causa quanto consequência deste caos que nos encontramos. Você pode dizer que a credibilidade está em baixa porque a mídia erra demais, e eu posso dizer que há uma pressão para “o tempo real” e menos gente escrevendo mais matérias. Eu vou dizer que há demissões porque ninguém quer pagar por algo que tem de graça na internet e você vai dizer que não há por que pagar quando o outro site tem rigorosamente as mesmas notícias. Você vai além e diz que ninguém irá se prontificar a pagar por jornalismo porque só há notícia de violência e celebridade e eu vou dizer que só há esse monte de bobagem porque elas dão muita audiência (logo, mais dinheiro de publicidade). O fato de a Veja e a Carta Capital (e seus correlatos eletrônicos) jogarem cada vez mais para as suas respectivas torcidas acontece por pressão da torcida ou porque elas estão justamente influenciando a torcida? Estamos errados, os dois, estamos certos. Pouco importa a essa altura.

O que importa é que todos esses dilemas Tostines confrontam a excepcionalidade do jornalismo (uma atividade do setor de serviços que deveria ser tratada de forma diferente, pela importância na democracia) com a lógica de que um bom produto, para o mercado, é o que tem custo baixo e o maior retorno possível. Como as grandes empresas de notícia passaram os últimos anos não vendendo notícias, mas juntando o maior público possível para vender a anunciantes, em tempos de crise – ou de maior pressão por lucros – elas têm de fazer isso gastando cada vez menos.

Este “mal do comercialismo”, na crítica de McChesney, diminui – ou melhor, esconde – o papel fundamental do jornalismo para a democracia. Digitando isso parece que estou tendo um daqueles delírios de grandeza que acomete qualquer jornalista que queria mudar o mundo quando prestou vestibular. Mas é que o impacto de menos jornalismo, mesmo o altamente comercializado da grande mídia, não é o mesmo que “menos carros sendo vendidos”; não é simplesmente uma indústria desacelerada, empregando menos gente. Não é a vitória do novo promissor sobre o velho decrépito. O estrago é maior. Em seus livros, McChesney mapeia a erosão da cobertura política em cidades menores nos EUA. Os bons repórteres de política custam caro, pela agenda e anos de trabalho. Menos jornalismo significa para o pesquisador um país mais corrupto. “A próxima geração de governantes terá bem menos dificuldade em engordar suas contas bancárias. Por toda a nação, a maior parte da atividade governamental tem acontecido no escuro, se comparada com uma ou duas décadas atrás.” Se, no Brasil, as atividades dos políticos e grandes empresas já não são devidamente investigadas pela imprensa, como imaginar que agora será melhor?

Fica evidente aí um paradoxo que deixa mais claro que o jornalismo não é uma função qualquer. Ou não deveria. As melhores, mais bem apuradas e mais impactantes reportagens, críticas ou artigos não são necessariamente (ou são raramente) as mais lidas – e certamente não são as mais baratas. Mas, especialmente na internet, elas custam praticamente o mesmo para o verdadeiro consumidor, comercialmente falando – o anunciante. Sem saber o que fazer, neste tempo de menores retornos as empresas jornalísticas cometem um lento suicídio. Para satisfazer a demanda por cliques, crescem o bolo, jogando mais açúcar em manchetes açucaradas e sensacionalistas, polvilhando com não-notícias sem parar, mas largando de mão o recheio. Porque ninguém chega a ele, e ele é relativamente caro. Isso vai matar todo mundo de diabetes antes de fornecer nutrientes suficientes à nossa democracia.

A importância do jornalismo não é medida pelo faturamento, o lucro, ou os cliques. Não dá para reforçar isso o suficiente.

Todo jornalista que se preza tem alguma história de uma grande reportagem que fez e se orgulhou, que efetivamente mudou a vida de alguma pessoa ou explicou um assunto importante, mas que recebeu uma audiência mínima. Isso é normal e, novamente, não é sinal de “um povo burro” ou mesmo de uma estratégia de divulgação necessariamente errada. Semanas atrás ouvi um desses causos de frustração profissional, assistindo a uma aula-debate inaugural de uma pós-graduação de jornalismo. Um editor de grande portal reclamava que um lindo, bem diagramado, apurado, contextualizado e cheio de infográficos especial sobre os 10 anos dos atentados de 11 de setembro teve uma fração das leituras da não-notícia “celebridades que tiveram problemas com as drogas” ou algo que o valha. Uma foi programada por vários repórteres e infografistas por mais de um mês, outra foi ordenada no meio da tarde para criar uma galeria (page views!) em cima de apenas um “fato” novo, requentando notícia velha.

Houve um desconforto na sala, porque de certa forma o editor jogou a questão, ou a culpa, em nós mesmos. Ele implicava que se nem a gente, um “público de elite”, clica nessas coisas, fica difícil a vida desse jornalismo “sério” que a gente reclama tanto que está sumindo. Será que o problema mesmo não é falta de dinheiro, mas sim falta de demanda? Será que a gente superestima o valor desse jornalismo sério, e que ele está sendo menos lido agora do que antes?

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