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O fundo do poço

Por Jayme Copstein A cada dia deslizamos mais fundo no abismo da insegurança a que nos conduziu o código de porta de cadeia, decretado …

Por Jayme Copstein

A cada dia deslizamos mais fundo no abismo da insegurança a que nos conduziu o código de porta de cadeia, decretado no Brasil como uma passe de mágica, uma varinha de condão, a cujo toque todos dar-se-iam as mãos, tornar-se-iam irmãos, cantariam louvações a Deus e seríamos felizes para sempre.

O que se viu na semana passada, no Rio de Janeiro, foi a falência dessa ingenuidade, cuja fronteira com a idiotice é difícil delinear. Os traficantes deixaram quatro corpos queimados em um automóvel e comunicaram à Polícia que tinha começado a punir os autores do massacre do ônibus incendiado. O recado é claro: os traficantes estão dizendo que fundaram um estado à parte, e criaram sua própria justiça, na qual as pessoas são inocentes ou não, de acordo com o arbítrio e o poder dos líderes. Igual a qualquer ditadura, de direita ou de esquerda.

A Polícia respondeu com a desgastada frase de que não há bandidos bons. Significa que o rigor – pouco – que antes seria suficiente para conter a delinqüência, será substituído agora por uma barbárie igual à praticada pelos criminosos.

Não há como fugir da realidade: trata-se de uma guerra – e, como na guerra, é uma alucinação achar que, algum dia, o lobo e o cordeiro poderão sentar-se à mesma mesa. Se não cuidarmos de pôr um buçal no lobo, com toda a certeza o cordeiro estará na mesa, sim, mas em uma travessa, para ser comido. E o lobo há de se defender com unhas e dentes, para que não lhe tirem a presa.

Ao longo do tempo, perseguindo a utopia do paraíso terrestre, as pessoas foram incitadas à violência. Aquele brasileiro afável, cordial e solidário, que existia até os anos 60, foi deslocado por um ser amargo, grosseiro, que nada respeita, substitui a ética pela vantagem a qualquer preço, que mata e morre nas ruas e nas estradas e acha que lhe devem todos os favores da vida apenas por ter nascido no Brasil.

A educação, a única arma capaz de revolucionar um país, nunca foi pensada como solução. Capacita as pessoas a viver melhor e a tornar melhor a sociedade em que vivem. Mas elas adquirem também, quando instruídas e educadas, discernimento para identificar a demagogia barata e repelir aqueles que, sedentos de poder, mantêm as massas na mais absoluta ignorância, para manipulá-las segundo as seus interesses e mesquinharias.

É o que não convém a quem se banqueteia no poder.

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